O Rio contra a pandemia

Cidade sofrerá os efeitos da crise mais do que outras metrópoles. Um problema excepcional, como o coronavírus, exige soluções excepcionais

Por Nuno Vasconcellos

O Rio contra a pandemia
O Rio contra a pandemia -
Rio - Entre as características que reforçam a admiração que tenho pelo Rio de Janeiro está a capacidade de nosso povo lidar com as adversidades sem abrir mão do otimismo e do bom humor. O carioca se une nas horas difíceis e sabe, mais do que ninguém, fazer dos limões que a vida tem lhe reservado, as limonadas mais saborosas e refrescantes. Essa característica, que se manifesta especialmente em situações de crise, será indispensável agora, quando o Rio mais uma vez tem diante de si um período de incertezas — desta vez provocado pela pandemia do coronavírus. Pelo perfil de sua economia, o Rio pagará pela epidemia um preço mais elevado do que outras metrópoles e, por mais otimista que seja, a população precisará de apoio para manter a resiliência neste momento.
Para começar, o turismo, uma fonte vital de geração de renda da cidade, foi atingido em cheio pelas medidas (todas necessárias) de contenção da epidemia. Num momento em que as aglomerações devem ser evitadas e até o trânsito de moradores pelas ruas tem que ser reduzido, o comércio formal e o informal, que é especialmente ativo na cidade, perderá sua renda por falta de fregueses.
EFEITO TSUNAMI
O que está acontecendo neste momento pode ser comparado a um tsunami: só depois que a água baixar é que se perceberá a dimensão do estrago. Isso não significa, porém, que não existam providências a ser tomadas agora, enquanto a água ainda está subindo. Elas funcionarão como boias de salvação e ajudarão a reduzir os efeitos da crise sobretudo para a parte da população que não tem qualquer proteção oficial contra a crise. Pense, por exemplo, naquela pessoa que, depois de perder o emprego, passou a ganhar dinheiro com a venda de quentinhas à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas. Sem fregueses para comprar sua mercadoria, de onde ele tirará sua renda?
Existe no Rio uma legião de trabalhadores formais e informais que dependem diretamente não só dos turistas, mas da circulação de pessoas pelas ruas. Com a restrição de movimentos, o cabeleireiro, por exemplo, ficará sem clientes, o garçom perderá o emprego por falta de fregueses e o motorista de aplicativo deixará de receber chamadas e terá, na melhor das hipóteses, menos dinheiro no bolso.
A pergunta é: como lidar com o problema? Situações excepcionais exigem, é claro, soluções excepcionais e corajosas! Colocar comida nas mesas das famílias, neste momento, é mais importante do que buscar o equilíbrio das contas públicas. É preciso que as autoridades mostrem a cara e adotem medidas de proteção aos que mais sofrerão com os efeitos das medidas (necessárias, insisto) de contenção da pandemia. É imperativo que o governo federal permita e facilite que os estados e municípios se endividem para fazer frente às necessidades que estão por vir. Esta é apenas uma das medidas a serem tomadas neste momento.
RESPONSABILIDADE PELA CRISE
É necessário, por exemplo, criar um mecanismo que contabilize numa espécie de "Refis preventivo" os impostos que afetam o caixa das empresas e que vencerão nos próximos quatro meses. Adiar o vencimento dos tributos, das contas de água e luz, e de outras obrigações é necessário. Mas a medida deve vir acompanhada de um prazo mais alongado para o pagamento das obrigações.
É importante, ainda, encontrar mecanismos que garantam um mínimo de renda para as pessoas que ficarão sem receita nesses três ou quatro meses. O carioca — seja empresário, trabalhador formal ou informal — não quer saber se a responsabilidade pelo problema é federal, estadual ou municipal... O que ele quer é ver a situação resolvida para poder, tão logo seja possível, voltar a fazer o que mais sabe: acolher com bom humor os visitantes do Rio, que voltarão, e transformar sua alegria em fonte de renda.
 
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