Uma visita ao Mercadão de Madureira

Amigo pede visita ao local

Por O Dia

Comércio popular da Zona Norte é um dos mais tradicionais do Rio
Comércio popular da Zona Norte é um dos mais tradicionais do Rio -
"André, me leva lá então?"
A pergunta me foi feita pela amiga de uma amiga de um amigo ao meu ouvir falar que segunda-feira eu iria ao Mercadão de Madureira. Respondi que levava sim, sem problemas. Ela ficou eufórica, parecia que estava se preparando pra fazer tiro ao alvo nas moscas dos cocôs dos cavalos do Beto Carrero World. Bonito de ver!
- A gente pode ir tipo umas sete e meia? - Ela continuou, quase em êxtase, ansiosa, ariana torta, revirava os olhinhos.
Respondi que era muito cedo pra mim e fiquei na dúvida se o local já estaria aberto.
- Não ! (muitos risinhos serelepes. Acho que ela tinha tomado Mate com mescalina). Sete da noite, queridão! (Queridão é de cair a cambaxirra da toca do poste). Saio da Puc as 5 da tarde e depois tô liberada. Pode ser?
Expliquei que a essa hora o Mercado estaria fechado ou fechando e que, bom mesmo, era chegar umas nove e meia da manhã pra pegar tudo fresquinho.
- Perfeito! A gente pode se encontrar no centro as nove e de lá pegamos um táxi?
Expliquei que morava perto e que não iria ao centro só pra voltar.
-Ah, vem sim. Pago o carro pra você vir até ao centro e de lá vamos juntos. Ainda te pago uma pizza. Eu tenho medo de Madureira. Não é lá que tem um lugar, que tem uma rua, que tem uma casa, que tem um canto escuro, que tem uma estátua do Monsueto, onde a Clara Nunes aparece pra cantar paródias das próprias músicas e assustar os outros?
Olhei pra ela, contei que tenho intolerância a lactose e que só como pizza quando sei que tem banheiro seguro por perto e também falei que Clara Nunes era um ser de luz e, provelmente, estaria no céu, gravando duetos com Elis, Clementina de Jesus e Frank Sinatra.
Fatia grossa de torta de climão servida em prato de alumínio. Os próprios amigos em comum perceberam os equívocos da amiga, a convenceram do absurdo de suas falas e ela aceitou se encontrar comigo na frente do lugar.
- Pensei em ir vestida de IANSÃ: uma pantalona verde, uma blusa cor de ferrugem com estampas de elefantes, um lenço amarelo e creme e uns acessórios dourados e prateados. E descalça pra sentir a terra.
Esclareci que era melhor ela guardar esse figurino pra TereFantasy , recomendei um tênis confortável ou um scarpin com estampa de onça em homenagem a falta de noção e sugeri uma pesquisa sobre IANSÃ.
- Amo IANSÃ. Descobri que ela gosta de Balé e que inclusive, tem uma IANSÃ só pra isso. Iansã do Balé. Fiz anos de Jazz e senti conexão. Também gosto daquela que se veste toda de folhas secas, Exum. É Exum ou é Ogã??
Me urinei um pouco. Quis sair de fininho. A perplexidade era tanta que achei que estava sendo filmado em alguma pegadinha.
- Você acha que devo usar repelente??
Fingi que não ouvi.
- Menina, Madureira não é o Zimbabue. Vai sem repelente e com essa sua roupa de atriz desconstruída que finge que é pobre usando roupinhas de brechó hippie que tá ótimo. - Um dos amigos presentes interveio ao perceber minha cara de absurdado.
A moça não desistiu, o surto era forte.
- Quero comprar um babalaô! Voce sabe onde compro um? Quero dois babalaôs. Grandes.
Gente! Eu senti minha alma sair do corpo, dar uma voltinha no inferno, pintar as unhas de rebu com a manicure de Satanás e voltar pro corpo cheia de fúria santa. Quando ia começar minha militância ela seguiu na sua falação:
- Quero aqueles babalaôs cheios de fita, de palha clarinha. Filmarei um curta com a Marina Ruy Barbosa e vou colocá-la de jovem que oferece um babalaô pra Yemanjá.
Ressuscitei ao entender que a doida queria um BALAIO e estava confundindo as palavras.
Voltei a ser simpático e expliquei que tinha uma amiga, a Peita, que fazia balaios por encomenda.
Ela abriu um sorriso tão simpático que tive peninha. Era dodói de tudo.
- Você acha que devo levar presentes pros locais? Umas frutas? Umas bonecas de pano, carrinhos de fricção? Quero agradar!
Falei: - Leva sim, amada! Leva também um fotógrafo especializado em vida selvagem e um domador de leões.
Ela entendeu a gafe, mas não arredou pé.
- Vamos?
Fomos.
Conto tudo em breve!

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