Nota zero para o apoio psicológico a alunos de escolas públicas

Caso do sequestrador do ônibus 2520 reabre debate sobre o papel das escolas em identificar precocemente distúrbios psiquiátricos. Rede estadual tem só oito profissionais para cuidar de 700 mil estudantes

Por Waleska Borges

Programa EscolaQPrevine em colégio de Caxias formou multiplicadores em prevenção
Programa EscolaQPrevine em colégio de Caxias formou multiplicadores em prevenção -
Rio - Diante dos casos de transtorno mental que presencia entre os alunos de uma escola estadual de São Gonçalo, na Região Metropolitana, a professora T. desabafa: "Me sinto impotente e derrotada. Sei do problema, mas não consigo ajudar". A declaração faz coro com a ex-docente de Willian Augusto da Silva, de 20 anos, que sequestrou um ônibus com 39 reféns, terça-feira, e parou a Ponte Rio-Niterói. Ela chegou a identificar que o rapaz tinha problemas de relacionamento. A história escolar do sequestrador, tido como introvertido, nervoso e calado, por sinal, reabriu o debate sobre o papel das instituições de ensino em identificar transtornos psiquiátricos. Afinal, a saúde mental dos estudantes é mais um desafio para os colégios públicos do Estado do Rio, que estão despreparados para lidar com a questão.
Na rede estadual de ensino, as 1.222 escolas e cerca de 700 mil alunos só podiam contar com uma equipe multidisciplinar de oito profissionais, composta por psicólogos, assistentes sociais, professores e psicopedagogos. No município do Rio, a prefeitura garantiu que atua nesses casos por meio do Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Unidades Escolares. O programa tem 183 profissionais, sendo 75 psicólogos, 71 assistentes sociais e 37 professores. Há na cidade, 1.540 colégios e 640 mil alunos. Já em São Gonçalo, cidade onde Willian estudou, a educação pública conta apenas com orientadores educacionais e os casos que precisam de avaliações psicológicas são encaminhados à área de saúde — há cerca 44 mil alunos e 110 unidades. A prefeitura, porém, não informou o número de psicólogos.
De acordo com professores das redes municipal e estadual de ensino do Rio e Região Metropolitana, quando eles pedem ajuda às secretarias de Educação para atender os estudantes com problemas psiquiátricos, são orientados a procurar os conselhos tutelares e delegacias. "Houve caso onde um aluno morreu na escola. Tanto a professora quanto os alunos ficaram abalados. Procuramos a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) e não tivemos qualquer amparo. Outra vez, um estudante teve um conflito com a direção e a orientação da Seduc foi procurarmos a delegacia e o Conselho Tutelar", lamentou um professor sem se identificar.
O problema se repete na Baixada Fluminense. Uma professora da região, que atua como orientadora educacional, contou que sem a ajuda da rede pública precisa recorrer a meios próprios. "Peço ajuda de amigos e conhecidos, pois apenas somos orientados a acionar o Conselho Tutelar para acesso aos serviços públicos, mas conheço mãe que nem acionando o órgão conseguiu atendimento psicológico para o filho", contou X.
Segundo Marta Moraes, da direção do Sindicato Estadual dos Profissionais do Rio de Janeiro (Sepe), a figura dos psicólogos está ausente das escolas públicas do estado. Ela acredita que a presença do profissional seria fundamental diante ao aumento dos casos de depressão. "É urgente que se crie uma política voltada ao atendimento desses casos. As famílias estão desestruturaras. Para uma professora, que tem turmas com até 50 alunos, é muito difícil a identificação de quem está com problemas mentais. Mas quando isso acontece, o professor também não tem a quem encaminhar o aluno", disse.
A diretora do Sepe lembrou ainda que, além dos alunos, os professores estão sendo afetados. "Cada vez mais, os docentes também estão adoecendo devido às péssimas condições de trabalho, tendo que mediar conflitos numa sociedade difícil e sem nenhum suporte do Estado", acrescentou.
Presença de psicólogos nas escolas pode prevenir crimes e suicídios

De acordo com especialistas em Educação, sem tratamento adequado, a doença mental pode ter consequências graves. Elaine Alves, do Instituto de Psicologia da USP, psicóloga com pós-doutorado em luto, emergências e desastres, avalia que atendimentos psicológicos podem prevenir situações como a do massacre da escola estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, Região Metropolitana de São Paulo, em março deste ano. Na ocasião, dez pessoas foram assassinadas por dois jovens. Dias antes de sequestrar o ônibus, Willian usou um telefone celular para pesquisar na internet o ataque a tiros à escola paulista.

"Não dá para dizer que a presença dos psicólogos nas escolas evitará novos casos de crimes e suicídios, mas previne. O psicólogo não vai atuar como clínico, mas estará atento à saúde mental dos alunos com a prevenção, identificação e encaminhamento dos casos", explicou ela.
De acordo com Elaine, nas escolas, o psicólogo vai fazer rodas de discussões sobre depressão, bullying, isolamento e inclusão, temas que afetam diretamente os alunos.


Ideias suicidas e de automutilação

Uma pesquisa sobre violências autoprovocadas (pensamento suicida, tentativa de suicídio e automutilação) em seis escolas de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, desenvolvida pelo Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEPeSP), que surgiu de uma parceria da Uerj com a Polícia Militar do Rio, apontou dados alarmantes. De forma anônima, no ano passado, 1.279 estudantes (de 9 a 15 anos) responderam que eles pensaram ou tentaram o suicídio e a automutilação. Do total, 288 responderam de forma positiva para uma dessas situações. Tentaram se matar 12%. Praticaram automutilações, sem intenção suicida, 8%. E tiveram pensamentos suicidas 3%.
Na liderança do ranking de vulnerabilidade nas unidades envolvidas na pesquisa, a Escola Municipal Roberto Weguelin de Abreu, que também apresentou maior taxa de adesão da comunidade escolar à pesquisa, foi selecionada para receber o piloto do Programa EscolaQPrevine. Foram formados multiplicadores em prevenção de violência autoprovocada no ambiente escolar. O programa foi implantado no colégio por um meio de um termo de cooperação entre o GEPeSP e a Secretaria Municipal de Educação de Duque de caxias.
"Infelizmente, esses problemas têm sido realidade em meio às nossas crianças e adolescentes, e nós devemos estar preparados para enfrentá-los", enfatizou a secretária Municipal de Educação, Cláudia Viana.

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