Deep web pode 'formar um caldo tóxico para nossos jovens', diz especialista

Márcia Magalhães Fonseca fala sobre o impacto da internet profunda nos problemas enfrentados por adolescentes

Por Luiz Franco *

Homenagens aos alunos assassinados na Escola Raul Brasil, em Suzano, São Paulo
Homenagens aos alunos assassinados na Escola Raul Brasil, em Suzano, São Paulo -

Rio - O episódio ocorrido na manhã de quarta-feira, em Suzano (SP), revelou um universo obscuro da internet, onde milhares de pessoas propagam a cultura de ódio em fóruns de conversa na 'deep web'. Lá, o termo 'incel', um diminutivo da expressão 'involuntary celibates', ou celibatários involuntários, reúne jovens que culpam as mulheres pelas suas próprias frustrações. Um ambiente já frequentado pelo atirador que matou 12 adolescentes na Escola Tasso da Silveira, em Realengo, em 2011. E que também fazia parte do universo dos responsáveis pelo massacre da cidade paulista. Especialista em Psicologia Escolar, Márcia Magalhães Fonseca fala sobre os problemas que levam a juventude a esse universo sombrio.

ODIA: Qual o impacto que esse ambiente obscuro da internet pode ter na cabeça de um adolescente nessas circunstâncias?

MÁRCIA FONSECA: A internet pode ser um fórum de compartilhamento que faz com que pessoas que pensam de forma parecida se encontrem e fortaleçam suas crenças e verdades pessoais de maneira muito rápida. Distúrbios de personalidade, violência social, famílias disfuncionais, uso de drogas, convivência com a anomia... Tudo pode formar um caldo tóxico em que a internet pode entrar apenas como um tempero a mais.

E filmes e jogos? Podem exercer alguma influência?

Não são eles que tornam alguém violento. Se a pessoa precisa recorrer à violência como possibilidade para existir, os jogos e filmes entram apenas como a gota d'água em um copo que já está cheio.

Os jovens, hoje, estão mais suscetíveis a cometer atos de violência?

O perfil dos adolescentes vem mudando. O desconforto no ambiente escolar está crescendo e eles estão cada vez mais desvalorizando tudo o que o ensino formal oferece. Afirmar que os jovens estão mais suscetíveis a atos violentos é fazer uma generalização perigosa e tornar superficial uma questão que é mais profunda. Mas tenho visto um distanciamento cada vez maior entre a escola e o aluno. Não são os jovens que estão mais suscetíveis à violência. A sociedade toda tem mostrado, aos poucos, sua face violenta.

É possível traçar um perfil psicológico dos adolescentes que podem estar mais suscetíveis a cometer ataques em escolas?

Foi dito por um familiar que o adolescente não aguentava mais ser alvo de críticas. Bullying na escola? Não sabemos ao certo. Não há como traçar um perfil de criminosos envolvidos em massacres. O que se pode imaginar é que possivelmente já havia se instalado algum transtorno de personalidade nesse dois rapazes.  

A escola pode prevenir esse tipo de caso?

A escola poderia ter um papel fundamental na promoção de saúde mental. Elas deveriam criar espaços para a discussão de situações sociais e se dedicar a acompanhar aqueles que mostrassem sinais de sofrimento psíquico, tais como dificuldade em administrar frustração, raiva, medo e tristeza. Mas, infelizmente, o sofrimento psíquico de pessoas como esses jovens vai sendo jogado para baixo do tapete por falta de condições nas escolas e de pessoal capacitado para dar conta dessas tarefas.

E os pais? O que podem fazer?

A disfuncionalidade familiar é um fato em nossa sociedade, chegando a ser dramática em algumas circunstâncias. Estamos adoecidos. Crimes como o de Suzano nos mostram o quanto estamos distantes de uma existência saudável. Dificuldades emocionais associadas a isso fazem com que eles se sintam impotentes para ocupar seus lugares de pais diante dos filhos, que ficam sem saber para onde se voltar. Nestas circunstâncias, é fácil se tornar presa de ideias ou práticas que pareçam oferecer reconhecimento ou poder.

* Estagiário sob supervisão de Herculano Barreto Filho

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