Gabriel Chalita: A história de um amor

Os olhares dos dois, vitoriosos sobre o tempo, permanecem em mim

Por Gabriel Chalita*

Gabriel Chalita, colunista do DIA
Gabriel Chalita, colunista do DIA -
Era inverno, mas o sol não havia se intimidado. No apartamento decorado por histórias, o calor da conversa respeitava o calor do dia. Tarcísio e Ruth se entreolhavam nas pausas das narrativas sobre o que viveram. "No ano que vem, celebraremos 70 anos de casados", pronunciou Ruth com a elegância dos que sabem que escolheram o certo. Tarcísio sorriu. E fez com que suas mãos se encontrassem. E se olharam como sempre. E sorriram apaixonados.

Tarcísio Padilha é um dos maiores intelectuais do Brasil. Um filósofo que amplia consciências, que inspira novas gerações a não ter medo ou preguiça do pensar.

O apartamento é preenchido por livros, por fotografias de tempos e de sentimentos. Por nascimentos e despedidas. O café está na temperatura certa. Entorno a xícara, vendo a fumaça que sai. E penso no simbólico do fogo. Nos mitos antigos, o mar geralmente simbolizava a horizontalidade do mundano. E o fogo, a verticalidade do sagrado. Sócrates, em um diálogo platônico, aparece falando sobre um homem encontrado no mar, depois de tempos, irreconhecível. Significando que a matéria, se nos afogarmos, retira a nossa essência.

A essência de Ruth e Tarcísio é o amor. E, em uma história de amor, a verdade sobressai à aparência. Vivem a horizontalidade do respeito cotidiano, abraçados à verticalidade do que os eleva, do que os faz permanecerem juntos em qualquer estação.

Conta ela sobre os feitos do marido. Sobre as viagens. Sobre os dias divertidos. Ele ouve sem interromper. Conhece a semântica da escuta. Ninguém chega aos 70 anos de enlace sem ouvir. Fala ele sobre ela. E os olhos espelham sentimentos de gratidão. Fez, também, a escolha certa.

Julio Lellis, um cultivador de grandezas, um costurador de sonhos, acompanha a prosa. Orgulhoso de estar ali. Com os dois. Comigo. Em um inverno cheio de sol.

Penso na efemeridade dos instantes e na permanência do sagrado. Os ponteiros prosseguem. O café se apresentou às 3 da tarde. E um badalar de algum sino me avisava que já eram 6. Era preciso partir. Três horas se passaram sem que nos preocupássemos com nada além de homenagear a palavra. A requintada criação humana que tem o poder de nos aproximar da criação maior, que não foi obra nossa, mas da qual participamos.

Não somos nós que decidimos a duração dos dias. Não temos nós o poder de estacionar as horas para prosseguirmos nos aquecendo de café e de sabedoria. Temos, entretanto, o poder dos acúmulos necessários. Há um recipiente em nosso interior, que responde pelo nome de memória e que sacraliza os humanos momentos que nos inspiram na busca da elevação.

Nas calçadas que nos serviram de testemunha, conversei com Julio sobre os dois, Ruth e Tarcísio. Sobre o que aprendi. Sobre o que contrastei com tantos verbos que vêm me incomodando no inverno das relações humanas: descartar, desprezar, desrespeitar, humilhar, agredir, não amar.

Abandonamos por alguns instantes a prosa e respiramos o cheiro que vinha do mar, de um Rio de Janeiro aguardando a primavera. Julio me falou de outros escritores e de outros textos. Eu falei do amor que faz com que escritores escrevam textos que permanecem. Inclusive na dor. Inclusive com sangue se, por acaso, as doridas feridas prosseguirem abertas.

Pensei na história de amor dos meus pais. E em outras histórias que os dias me presentearam conhecer. A humanidade não está perdida. Concluí o dia, agradecendo. No inverno é possível experimentar o milagre do calor. Os olhares dos dois, vitoriosos sobre o tempo, permanecem em mim.
*Gabriel Chalita é professor e escritor

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