João Batista Damasceno: "Terrivelmente evangélicos", terrivelmente contra os direitos

Oprimido, perseguido e ressentido este povo "terrivelmente evangélico", sem valores republicanos e sem concepção do que seja o Estado de Direito, é a massa de manobra ideal para os donos do poder

Por João Batista Damasceno*

João Batista Damasceno, colunista do DIA
João Batista Damasceno, colunista do DIA -
A ocupação das instituições brasileiras no presente momento, sem preocupações republicanas, apoiada por um povo “terrivelmente evangélico”, desvela um embate que permanece no Brasil desde épocas remotas. “Entre a Cruz e a Espada” era a alternativa perversa de subordinação aos ‘Senhores de Engenho’ ou aos padres no Brasil-Colônia. Para reduzir o poder da Igreja, Marquês de Pombal expulsou os jesuítas do Brasil em 1759. Após a independência, Dom Pedro I outorgou a Constituição de 1824 “em nome da Santíssima Trindade”. A ‘Questão Religiosa’ opôs parcela da Igreja a Dom Pedro II e contribuiu para a Proclamação da República.

O Estado brasileiro se afirmou a trancos e barrancos em oposição aos poderes tradicionais do patriarcado e do clero. Getúlio Vargas golpeou os coronéis instituindo o voto feminino em 1932. Mas, reforçou o poder da Igreja, pois os padres passaram a cabalar o voto das fiéis nos confessionários.

O judiciário não ficou de fora. Os crucifixos nos tribunais foram naturalizados e desconsiderado o desrespeito aos praticantes de outros credos. Em 1949 o STF considerou ilegítimo o funcionamento público da Igreja Católica Apostólica Brasileira, porque competia com o clero de fidelidade romana, e ratificou o ato da polícia que os proibira.

O poder dos padres no interior do Brasil era abusivo, pois se consideravam donos das cidades. Ainda se encontram pelo interior cemitérios ‘administrados’ pela Igreja, à custa do erário público, com divisão entre a área nobre destinada aos ‘fiéis do padre’ e outra aos praticantes dos demais credos. A perseguição aos ‘crentes evangélicos’ sempre foi implacável. Em 1952, em Varre-Sai/RJ, o padre instou o delegado a proibir um culto público, sob o fundamento de que a praça era terra de São Sebastião, portanto particular da Igreja. E enquanto badalava o sino para atrapalhar o culto alheio, seus seguidores dispersaram os “excomungados” com bombas de pólvora e pedradas. Em Santo Antônio de Pádua/RJ, a Igreja ajuizou ação reivindicando as áreas públicas do município. O processo está no Museu da Justiça. Na década de 50, em Santa Margarida/MG, o padre Galdino dissolvia cultos públicos dos ‘crentes evangélicos’ a bala. Para realizá-los era necessária autorização e segurança da polícia, que nem sempre estava disposta a atender.
O protestantismo europeu é racional, data da Idade Moderna e é o fundamento do capitalismo. Uma das teses luteranas tratava da separação da Igreja e do Estado.

O ‘evangelismo pentecostal’ no Brasil advém do sul escravista dos EUA. Daí sua aversão aos cultos de matriz africana. Dissemina preconceitos fundados em sua origem e em leituras descontextualizadas de trechos de suas bíblias. Mas serviu para elevar pessoas humildes da condição de meros expectadores da missa a ‘protagonistas da palavra’. O ‘evangelismo pentecostal’ apesar de rude, retrógrado e primitivo deu voz a quem não a tinha. Assim, meros ‘repetidores de ladainha’ tornaram-se ‘cidadãos com fala’, pregadores, testemunhas de milagres e doutrinadores sobre costumes. É uma espécie de cidadania fake, porque permite a fala, mas não assegura direitos.

Protestantes, evangélicos, pentecostais e neopentecostais são correntes diferentes do cristianismo não católico. Oprimido, perseguido e ressentido este povo “terrivelmente evangélico”, sem valores republicanos e sem concepção do que seja o Estado de Direito, é a massa de manobra ideal para os donos do poder. E por não exercitarem a dúvida que propicia o conhecimento, apegam-se - com a certeza da fé - a lutas imaginárias entre o bem o mal. Sob a ordem de seus pastores atuam como ovelhas integradas num rebanho e cerram fileiras ao lado do que acreditam ser o bem, ainda que seja o que destruirá seus direitos e seu país. Se não mudarmos o rumo da história nos tornaremos uma Somália.

*João Batista Damasceno é professor da Uerj e doutor em Ciência Política

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