Mônica Francisco e Ivanete Silva: O paciente e o prefeito. Duas histórias da mesma cidade

Fortalecer o Sistema Único de Saúde, como uma construção coletiva, é estimular a mobilização da sociedade para superar os desafios da saúde pública e dos direitos sociais

Por Mônica Francisco* e Ivanete Silva**

Opina 30 julho
Opina 30 julho -
“O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilidade e de envolvimento afetivo com o outro.” Leonardo Boff

O paciente internado no Hospital Moacyr do Carmo, em Duque de Caxias, a espera de uma cirurgia vascular, repete para quem vai visitá-lo que a saúde pública não funciona. Não tem quem liga, diz o paciente, citando os nomes dos hospitais da Baixada e dos prefeitos, que não fazem o que precisam fazer.

O que precisa ser feito? O paciente, um senhor de 70 anos, responde envergonhado pela situação: A gente precisa ser tratado como gente. Não é difícil entender o que ele fala. As condições do hospital, para quem está nas enfermarias, são precárias. A estrutura física não atende às necessidades de cuidado e tratamento.

Não há lençóis, nem toalhas, nem travesseiros, nem cobertores. Tudo vai de casa. As famílias, que se desdobram entre o trabalho diário, o isolamento imposto pelo coronavírus e o parente doente, são as responsáveis por retirar a roupa suja e reabastecer com roupa limpa.

Há pacientes sem máscara? Muitos. Há famílias moradoras da Baixada, onde historicamente os serviços de água não garantem o abastecimento essencial? Sim, muitas. O paciente que espera a cirurgia, um ávido leitor de jornais, lembra que o prefeito da cidade, quando diagnosticado com Covid-19, no mês de abril, teve acesso a um atendimento de saúde caro. Esse mesmo prefeito liberou o comércio baseado apenas em sua opinião, ainda que o município apresente cerca de 4 mil casos do novo Coronavírus confirmados e 491 óbitos por Covid-19, dados da Secretaria de Estado de Saúde.

Ele foi se tratar em um hospital particular. Para ele está tudo bem. Para nós não está bom. Ficamos expostos. E fala sobre como o Brasil é um país grande e extremamente desigual. Olhar para as condições da saúde pública é constatar a desigualdade, o tratamento desigual dado aos diferentes.

Em defesa do SUS – A pandemia do coronavírus expôs mais uma vez a importância do Sistema Único de Saúde através dos leitos de Unidade de Tratamento Intensivo, da abertura de novos leitos, no combate à doença e na prevenção de disseminação do vírus.

É preciso consolidar os avanços históricos da Saúde no Brasil, como a descentralização, a municipalização de serviços, a ampliação da atenção à saúde, o fomento à vigilância sanitária e o controle social com a atuação dos conselhos de saúde. É preciso, sobretudo, melhorar esses avanços, exigir a responsabilidade dos governos, é preciso comprometer os recursos públicos para que as melhorias sejam realizadas, garantindo o SUS como um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo.

O paciente internado no Hospital Moacyr do Carmo sabe que o SUS é uma conquista da sociedade, criado com o propósito de promover a justiça social e superar as desigualdades na assistência à saúde da população, tornando obrigatório e gratuito o atendimento a todos. Um sistema integral, universal e igualitário.

A vida do paciente na enfermaria precarizada do Moacyr do Carmo vale tanto quanto a vida do prefeito. Fortalecer o Sistema Único de Saúde, como uma construção coletiva, é estimular a mobilização da sociedade para superar os desafios da saúde pública e dos direitos sociais.

*Mônica Francisco é deputada estadual e membro da Comissão de Saúde da Alerj

**Ivanete Silva é professora da Educação Básica

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