Luiz Antônio Teixeira Jr: E quando o corona chegar na favela?

É absolutamente prioritária a definição de uma estratégia clara, porque não se pode deixar para pensar nisso quando houver o início dos sinais de transmissão comunitária nas favelas e comunidades

Por Luiz Antônio Teixeira Jr*

Luiz Antonio Teixeira Jr
Luiz Antonio Teixeira Jr -
Comunidades, favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, mocambos, palafitas. Chamadas de diferentes formas, dependendo da região do país, o fato é que essas áreas abrigam, segundo censo do IBGE de 2010, nada menos que 11.425.644 pessoas, ou 6% da população brasileira. Essas pessoas vivem em 5,6% (3.224.529) do total de domicílios do país. Desse total, 320 mil são “habitações” de apenas um cômodo e 1,4 milhão de dois cômodos (casas com sala e banheiro, ou sala e cozinha, por exemplo).

No Rio de Janeiro, a situação é ainda mais complexa. Dentre todas as capitais, o Rio reúne maior número de pessoas vivendo em comunidades. Para ser mais preciso, 22% da população da cidade do Rio de Janeiro, segundo o IBGE, morava em favelas no ano que foi feita a pesquisa, há dez anos, num total de 1.393.314 habitantes. Hoje, esse número deve ser ainda maior.

A pergunta que todos se fazem nos últimos dias por conta da pandemia que assola a humanidade (sem que se ouçam respostas) é: como fazer o isolamento domiciliar de casos leves, quando a Covid-19 chegar a esta população mais pobre, que vive em domicílios nessas condições?

Pesquisar o que fizeram países de alta densidade populacional, como China, Irã e Coreia do Sul, pode nos levar a algumas respostas. A China, por exemplo, usou hotéis – é verdade que um deles estava em tão mau estado que desabou, matando 70 pacientes. Mas esse erro não precisa ser repetido.

Numa cidade em que vários motéis faliram nos últimos tempos e a rede de hotéis amargam ocupação zero e cancelamentos por conta do coronavírus, a parceria o setor hoteleiro se faz quase que obrigatório neste momento.

É absolutamente prioritária a definição de uma estratégia clara, porque não se pode deixar para pensar nisso quando houver o início dos sinais de transmissão comunitária nas favelas e comunidades, porque aí será tarde demais para se buscar alternativas.

Como médico e rubro-negro, que canta “festa na favela” a cada vitória do meu time, não posso deixar de alertar as autoridades sanitárias para essa importante questão, para que não tenhamos centenas ou mesmo milhares de mortos em nossas comunidades por falta de planejamento e ação no tempo e na hora certa.

*Luiz Antônio Teixeira Jr é médico, deputado federal (PP-RJ), foi secretário estadual de Saúde do Rio e coordena a Comissão Externa para o coronavírus da Câmara dos Deputados
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