João Batista Damasceno: A resposta do porão

Dentre as instituições do Estado, as Forças Armadas foram as que mais sofreram com o golpe empresarial militar de 1964

Por O Dia

João Batista Damasceno, colunista do DIA
João Batista Damasceno, colunista do DIA -
Rio - O golpe empresarial militar que assaltou o Estado em 1964 agregou setores contrários aos interesses do povo brasileiro alinhados com interesses dos EUA, reforçados durante o governo JK. Do seio militar havia os tenentistas que se insubordinavam desde 1922, chamados de “Sorbone das Forças Armadas”, e militares de visão mais tacanha, chamados de “linha dura”. Os militares nacionalistas eram legalistas. Consumado o golpe, com apoio yankee, como comprovam documentos já publicizados nos EUA e mostrados no filme ‘O dia que durou 21 anos’, começaram as perseguições aos brasileiros nacionalistas, incluindo militares, e aos comunistas.

Dentre as instituições do Estado, as Forças Armadas foram as que mais sofreram com o golpe empresarial militar de 1964. Por patriotismo, dezenas de milhares de militares perderam suas patentes e postos. Venceram os entreguistas. Os opositores do regime ficaram sujeitos a prisões arbitrárias, torturas, morte e desaparecimentos. A primeira fase do regime estava sob o comando dos militares tenentistas, de melhor formação intelectual. Mas com Costa e Silva, a tigrada subiu ao poder. No Governo Médici a ditadura escancarou os dentes e perdeu a vergonha de ser ditadura. A abertura política começou com o retorno do tenentista Ernesto Geisel e as mortes passaram a acontecer somente quando autorizadas. As execuções, não autorizadas, sob tortura, de Manoel Fiel Filho e Vladimir Herzog levou o general presidente Geisel a destituir o comandante do 2.º Exército e depois o próprio ministro do Exército, Silvio Frota.

Os setores conservadores, mas moderados, que haviam apoiado o golpe passaram a fazer oposição: OAB, Igreja, empresários e ampla parcela da classe média. A abertura aconteceu num processo lento, gradual e seguro, antes que a sociedade reagisse. Mesmo assim, a tigrada ficou raivosa e passou a botar bombas pela cidade: ABI, OAB, Câmara de Vereadores, bancas de jornal etc. Foram muitas, até que uma bomba explodiu no colo de um terrorista do Exército no Riocentro, em 1981, onde mataria milhares de jovens num show de MPB. Morreu o sargento Rosário, mas sobreviveu o capitão Machado, mantido no Exército e reformado como coronel em data recente. Em troca do encerramento do caso, a tigrada aquietou-se nos esgotos e tornou possível a abertura política.

Poucos anos depois um outro capitão ameaçou colocar bombas, dando sinais de que os terroristas continuavam em atividade. Mas, a área moderada tinha o controle e o colocou para fora. Aproveitando os desarranjos pelos quais passa a sociedade brasileira, a tigrada saiu da caverna, com o apoio da mídia tomou o poder, e ameaça as próprias instituições. O retorno da tigrada é conseqüência de não termos feito a redemocratização com responsabilização dos que atentaram contra a democracia e o Estado de Direito, assaltaram o poder, mataram, torturaram, estupraram, roubaram, traficaram e desapareceram com pessoas. A tigrada está no poder e as milícias são a nova face dos ‘Esquadrões da Morte’ que de dentro do DOPS, DOI-Codi, Polícia Federal e quartéis assombravam as noites e os sonos durante os ‘Anos de chumbo’. A morte de Marielle pode ter sido encomendada por aqueles que queriam plantar o terror a fim de surgirem como ‘salvadores da pátria’ a exemplo dos que queriam explodir o gasômetro do Rio de Janeiro na hora do rush. O emprego das Forças Armadas contra os próprios brasileiros, para Garantia da Lei e da Ordem (GLO), e no Haiti, nos governos Lula e Dilma, pode ter reforçado os seus papéis e suas ousadias.
João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política e juiz de direito do TJ/RJ

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