Marcos Espínola: setembro amarelo para policiais

Estamos diante de um problema social de extrema complexidade e que pouco se discute. A PM do Rio tem aproximadamente 16 mil homens longe das ruas, praticamente um terço do efetivo do Estado

Por Marcos Espínola Advogado criminalista

Marcos Espínola
Marcos Espínola -

Rio - Eles matam quando é preciso, pois estão à frente do combate ao crime. Mas, também se matam quando não aguentam a tamanha pressão do dia a dia, cujo fator psicológico é altamente sacrificado. Essa é a realidade dos policiais que, além do cotidiano tenso e das dificuldades que enfrentam para exercer suas funções, muitas vezes ainda sofrem com as críticas muitas vezes injustas de boa parte da sociedade. Neste mês, chamado de Setembro Amarelo, pela prevenção ao suicídio, vale a reflexão sobre essa realidade alarmante.

Segundo dados da própria polícia militar entre 1995 e 2009, quase 60 policiais se suicidaram. O estudo comprovou que o risco de policiais se matarem é quatro vezes maior do que a população em geral.

Em 2016, um grupo de psicólogos da PM carioca e pesquisadores do Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção da Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ lançaram o livro "Por que os policiais se matam", um dos mais completos estudos sobre a problemática do suicídio entre policiais, sob a coordenação da cientista política Dayse Miranda. O grupo revelou que, de 224 policiais militares entrevistados, 10% disseram ter tentado suicídio e 22% afirmaram ter pensado em suicídio em algum momento. E esses números podem ser ainda maiores.

Estamos diante de um problema social de extrema complexidade e que pouco se discute. A PM do Rio tem aproximadamente 16 mil homens longe das ruas, praticamente um terço do efetivo do Estado. Cerca de 50% deles estão afastados por recomendação médica e as doenças psiquiátricas são responsáveis por boa parte das licenças.

Na polícia civil a história não é tão diferente. De acordo com o Sindicato dos Policiais Civis do Estado, as três principais causas do afastamento de policias civis são cardiovasculares, ortopédicas e psicológicas, nestas estão associadas doenças como o alcoolismo, a ansiedade, a síndrome do pânico, o uso de drogas e a depressão, que em casos mais graves, pode levar o policial ao suicídio.

Enfim, num mês cujo objetivo é chamar a atenção para a prevenção ao suicídio fica o desejo de que nossas autoridades vejam com mais atenção a vida dos agentes de segurança como um todo. Há um real sofrimento silencioso atingindo não só esses profissionais, mas suas famílias inteiras.

Marcos Espínola é advogado criminalista

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