O que ficou de Suzano

Tragédia no interior de São Paulo reabre discussões sobre o papel das escolas em identificar possíveis transtornos mentais e problemas de comportamento e socialização em seus alunos

Por Carolina Pavanelli

Após massacre em Suzano, alunos da Escola Estadual Professor Raul Brasil retornam à instituição
Após massacre em Suzano, alunos da Escola Estadual Professor Raul Brasil retornam à instituição -

Rio - Parecia cena de filme, mas era realidade. Parecia ter acontecido em outro lugar, mas era aqui. Afinal, massacres em escolas acontecem lá longe, talvez nos Estados Unidos, mas não aqui. Aqui não. Mas aconteceu. E aconteceu mais de uma vez. E sempre que acontece, a gente se choca, como se nunca tivesse acontecido. E se pergunta: por que aconteceu? Como não reparamos? Será que ninguém viu nada? O que estávamos fazendo esse tempo todo?

O último dia 13 marcou um mês do massacre em Suzano, quando dois jovens entraram em uma escola e abriram fogo, matando 8 pessoas e deixando outras várias feridas – algumas no campo físico, muitas no emocional. Ambos ex-alunos da escola. Para além de tentar entender o que não tem entendimento - o que leva dois seres humanos a planejarem, por cerca de um ano e meio, assassinarem outros seres humanos, que absolutamente nada fizeram a eles - a discussão se amplia. Esse lamentável acontecimento reabriu discussões sobre o papel das escolas em identificar possíveis transtornos mentais em seus alunos, ou problemas de comportamento e socialização.

É claro que, muito embora escolas contem, por vezes, com equipes de psicólogos, não deve recair sobre elas a responsabilidade plena sobre uma catástrofe dessas. Afinal, existem centenas de fatores externos, como sociais e mesmo mentais, que podem potencializar e catapultar atitudes como essas. Além disso, cabe a todos os adultos presentes na vida de uma criança observar se comportamentos duvidosos estão se configurando. Mas, para além disso, é preciso ajudar a prevenir essas tragédias, e nisso a escola pode sim ajudar.

A meu ver, são duas as ações mais impactantes de prevenção nesse caso. A primeira é o combate ferrenho ao bullying nas escolas, que apesar de existir desde sempre, tem ganhado contornos mais cruéis e angustiantes do que nunca, especialmente com o uso desenfreado das redes sociais até mesmo por crianças que, na maioria faz vezes, não tem maturidade para usá-las. As redes são, ao mesmo tempo, uma extensão e uma parte intrínseca de crianças e jovens nos dias de hoje, talvez tão forte quanto a escola. E para combater o bullying e outras manifestações de intolerância e maldade, é preciso ensinar muito mais do que Matemática, Português e Ciências nas escolas. No mundo inteiro, tem ganhado protagonismo o ensino de habilidades socioemocionais, como empatia, resiliência e trabalho em equipe. Apenas com elas é possível formar cidadãos completos, pessoas que pensam em si e no próximo e têm noção do impacto de suas atitudes no mundo. Tragédias sempre existiram e sempre existirão, mas muitas delas podem sim ser evitadas e, quem sabe, erradicadas. Afinal, massacres não combinam com escola, que precisam ser, antes de qualquer coisa, um espaço de convívio e aprendizagem, e nunca de medo.

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