'Uns rapazes na rua brincaram comigo: 'Aquele Jesus é da sua escola, né?'

Alvinegro, Bernardinho elogia trabalho do português no Flamengo, fala sobre a trajetória do filho Bruninho nas quadras e conta como está a vida aos 60 anos

Por ANA CARLA GOMES

Bernardinho comanda a equipe feminina do Sesc RJ na Superliga de Vôlei
Bernardinho comanda a equipe feminina do Sesc RJ na Superliga de Vôlei -

Bernardinho fez 60 anos em 2019 com a convicção de que o vôlei é mesmo o seu lugar e que é movido pelo trabalho. Tanto que seu conselho para os mais jovens é: "Encontre aquilo que você ama fazer e morra fazendo aquilo". Fora do comando da Seleção masculina após a conquista do ouro na Rio-2016, ele segue à frente do time feminino do Sesc RJ, que até agora só perdeu uma das 11 partidas na Superliga, para o Itambé-Minas. Como pai, acompanha orgulhoso a trajetória do filho, o levantador Bruninho, que completou recentemente uma galeria impressionante de títulos com o ouro do Mundial de Clubes pelo Civitanova, da Itália, além do crescimento de Júlia, de 18 anos, e Vitória, de 10 anos, frutos do seu casamento com Fernanda Venturini. 

O DIA: Como você avalia a campanha do Sesc RJ até agora na Superliga feminina de vôlei, com uma derrota, diante do Itambé-Minas em 11 partidas?

Bernardinho: Tem muita coisa a ser feita. não só ganhar, mas desenvolver jogadoras. Muitas delas têm projetos individuais e coletivos. Coletivos são conquistar títulos e uma boa colocação nas competições que disputarem. Mas tem as questões individuais, tem a Olimpíada, muitas delas sonham legitimamente com isso. Então, tem que se trabalhar bem para que elas possam ter uma oportunidade, é contribuir para isso também.

Em relação a Tóquio-2020, a Tandara, ouro em Londres-2012, tem o sonho de voltar a disputar uma Olimpíada após não ter disputado a Rio-2016...

Ela vem crescendo a cada dia. Mesmo na derrota para o Minas ela foi uma jogadora importante. Ela estava com um problema de uma virose muito forte. Mesmo assim, vem sendo decisivo. Brasil não pode prescindir de uma jogadora como ela. Ela tem esse sonho de ir fazer bem. Ela tem certeza de que ela vai realizar e eu espero ser uma ferramenta para auxiliá-la. Ela é uma jogadora muito importante para os anseios do Brasil.

Aos 60 anos, você vê o Bruno completar um currículo vitorioso com a conquista do Mundial de Clubes pelo Civitanova, da Itália. Qual é a sensação de vê-lo se destacar no vôlei, com toda a pressão pelos pais terem se destacado na modalidade?

O Bruno deu uma entrevista e falou uma coisa: 'Eu nunca vou ser comparado com os melhores jogadores do mundo. Mas eu quero ser um dos maiores vencedores do mundo'. Ele hoje é o atleta mais vitorioso da história do vôlei mundial. É a prova de que não é só o talento. Ele tem um talento médio, ele sabe bem disso. A ideia é fazer o time vencer, esse é o objetivo. Sou muito orgulhoso da carreira que ele construiu. As coisas que a gente troca, que ele fala, me dão orgulho do homem que ele se tornou, da carreira que ele está ainda realizando.

Recentemente, você também acompanhou a formatura da Júlia, de 18 anos, no Ensino Médio. Qual é a sensação de vê-la crescendo e se realizando?

É uma etapa importante e bacana concluída. Eu vim ao Rio para a cerimônia, voltei para o jogo, um trânsito, corri para chegar lá em Belo Horizonte, cheguei morto lá. Foi muito bonita a cerimônia e ela foi elogiada pelos professores por mostrar uma certa capacidade de liderança ali também, é interessante ver isso. Foi emocionante e fiz questão de estar. Dança e balé eu perdi uns 50, mas sempre tem um que dá para ver. Mas formatura só tem essa. Até hoje a Vitória sabe que eu não estava aqui no nascimento dela. Cheguei horas e horas depois. Até hoje ela fala: 'Você não me viu falar'.

Qual área ela pretende seguir? E a Vitória, a caçula, de 10 anos, já faz planos?

A Júlia quer fazer alguma coisa ligada a Business e Comunicação. Não só Negócios. Mas também na área de Comunicação. Nos Estados Unidos, ela aplicou para muitas universidades e agora em janeiro as escolhas começam. A tendência maior é a Califórnia, pelo estilo de vida. Tem Boston. Eu particularmente acho Boston uma cidade acadêmica incrível. Espero que ela volte porque temos que formar nossos filhos para que eles se capacitem e voltem para ajudar a transformar, a fazer aquilo que a gente espera que esse país consiga fazer. Criar condições para que eles consigam ajudar nessa obra aí. Quanto à Vitória, também vi a apresentação de fim de ano dela na dança. Ela também faz vôlei. Ela legal vê-la se desenvolvendo. Eu brinquei com ela: 'Você vai muito bem no levantamento, você vai ser igual à sua mãe'. Mas ela não quer ser nada ainda. Ela gosta de brincar com as amigas.

Você completou 60 anos em agosto. Como se sente?

Em algumas coisas eu mudei, em outras não. Sessenta parecia ser um número tão grande lá atrás hoje, não ligo para ele. Só uma coisa que eu tenho a convicção e falo para os jovens: 'Encontre aquilo que você ama fazer e morra fazendo aquilo'. De vez em quando vai ser duro, vai distrair um pouquinho. Mas, se é o que você gosta de fazer, morre fazendo aquilo. Eu tenho essa coisa do trabalho, eu gosto de trabalhar. Quando não estou trabalhando, sinto que estou perdendo tempo. Eu tenho essa característica. Eu gosto disso, de estudar, de pensar o que fazer no treino. É o que eu tenho feito. Nada mudou.

Quando você deixou o comando da Seleção masculina de vôlei, pensava em dedicar mais tempo para a família. Está conseguindo?

As pessoas quando eu estavam na Seleção meio que respeitavam por eu estar na Seleção. Agora, o número de solicitações para tudo o que você possa imaginar é insano, para eventos, reuniões, participar de coisas. Tenho feito muito ciclismo indoor. A minha meta para 2020 é treinar dizer não para mais coisas. Eu desliguei o telefone ontem durante algumas horas porque estava filmando um negócio e tinham 112 mensagens no whatsapp. Continuo dando aula na PUC, às segundas, de Liderança para jovens empreendedores. Esse convívio com jovens é incrível.

Você é botafoguense, mas tem acompanhado o trabalho do português Jorge Jesus no Flamengo?

Outro dia estava andando na rua e tinham uns rapazes trabalhando num buraco em Ipanema e falaram: 'Aquele Jesus é da sua escola, né?'. É o estilo, né? Quando ele veio eu já tinha lido um pouco sobre ele. É cara muito competente. E ele encontra um clube bem estruturado, uma estrutura muito sólida. E isso é muito importante. Deram uma condição a ele, um cara competente de realizar o que ele realizou. Se chega num clube sem pagar os jogadores, por melhor que ele fosse, seria complicado. O Flamengo tem todo o mérito de trazer um cara competente, um líder, inspirador. Tem um jogo, acho que contra o Grêmio, ganhando de 5 a 0, e no segundo tempo, ele dando pressão nos caras: 'Tem que marcar'. Aí eu brinco dizendo: 'Se fosse eu, ganhando de 2 a 0 e de 20 a 10, iriam dizer que eu era maluco, está gritando. Mas Jesus pode (risos)'. Não é questão de estar ganhando. É criar o hábito de a coisa ser feita da forma como tem que ser feita. Isso uma coisa que talvez exista uma similaridade. E uma admiração pelo trabalho que ele fez. Não sou flamenguista, mas admiro as coisas bem feitas. E que se torne uma referência também para os outros clubes. Futebol é tão forte, pode movimentar tanto e precisa de gente competente para movimentar isso. Deixar um pouco a paixão de lado e usar mais o pragmatismo. A paixão é para a arquibancada. Na gestão, tem que ter pragmatismo, uma certa ciência naquilo.

E quando ao seu clube, o Botafogo? Acredita que o projeto do clube-empresa será uma boa solução para o Alvinegro?

É uma possibilidade. É importante ter gente com capacidade de gestão. É um clube que tem uma tradição fantástica, um carisma muito bacana. Com certeza, com uma gestão bacana, com investimento. Quando você estrutura e gera confiança no ambiente corporativo, a mudança pode acontecer. Eu torço muito pelo Botafogo. Mas torço para que os outros acontecem. Tem muita gente boa, competente. Mas tem que deixar que aconteça. Tem que estruturar. Aqui a coisa é muito imediata.

No ano que vem teremos eleições e, de uns tempos para cá, seu nome sempre é associado à política. Tem alguma pretensão.

Agora digo que eu não posso porque meu irmão é presidente do diretório do Rio, ele está ajudando lá o Novo. Então eu não posso me candidatar e saio um pouco da berlinda (risos). Mas continuo apoiando, acreditando no time Novo. Escolher alguém com consciência e apoiar e cobrar daquela posição é uma obrigação de todos nós, cidadãos. O Novo, nesse aspecto, tem se orgulhado muito porque a bancada federal tem feito um trabalho incrível. Pode discordar, mas há de se respeitar o trabalho que se está fazendo. Que a discordância venha com respeito. Acho que na política há essa coisa de quando há a discordância, quebra o diálogo. Tem que ter conteúdo também. Espero que uma nova eleição, renove um pouco mais, não apenas do Novo, gente boa de outros partidos, com outras ideias, com disposição para não viver da política e se beneficiar de alguma maneira.

 

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