Gabriel David: 'Não existe receita de bolo para salvar o Carnaval do Rio'

Empresário revela suas expectativas para a folia deste ano

Por O Dia

Gabriel David
Gabriel David -

Muito se questiona atualmente sobre o futuro do Carnaval carioca. E, no meio de tantas opiniões e direcionamentos, a coluna traz neste domingo, uma entrevista com Gabriel David, de 21 anos, filho de Anísio Abraão, uma das figuras mais populares do Carnaval, e que em 2018 herdou o comando da Beija-Flor, sendo, tão jovem, um dos responsáveis pelo título da escola de Nilópolis. Além de orquestrar a escola de samba, Gabriel é empresário do ramo de entretenimento e, mesmo no meio de uma crise, investe também em um dos maiores camarotes da Sapucaí, o Nosso Camarote, sociedade com Carol Sampaio e Ronaldo. O futuro da maior festa do Rio de Janeiro, para Gabriel, depende de uma mudança completa de gestão, ajustes de contrato com a TV Globo, e da força de chamar a atenção de outros jovens como ele. Senhoras e senhores, com vocês, Gabriel David!

Como vai ser a sua rotina no Carnaval 2019? Dá tempo de dormir, comer?

Dormir vira um detalhe. Tenho que colocar as coisas na ordem de prioridade, não tem jeito. A prioridade é o trabalho, é colocar um bom carnaval na Avenida.

O que você vem aprendendo com o Carnaval carioca?

O Carnaval é um grande momento de união. É uma festa que une pessoas de todos os tipos, de todas as classes, em prol de um objetivo único, que é ter um momento de felicidade, de curtir.

Como é estar no comando de uma das escolas mais queridas do Rio: a Beija-Flor?

A Beija-Flor é única. Ela tem uma comunidade completamente apaixonada, que vive pela escola e a escola vive por eles. Isso facilita qualquer trabalho. A comunidade abraça muito e ajuda muito a escola. E isso faz com que a escola esteja sempre lutando e ganhando muitos títulos. Apresentamos um alto nível de espetáculo. Eu já cheguei numa escola com uma estrutura pronta, em termos gerais, com profissionais muito bem qualificados. Mas acho que a base da escola, que deve ser exaltada, é a comunidade.

O que mudou na Beija-Flor com a sua chegada e qual mudança foi a mais difícil de ser realizada?

A Beija-flor estava muito acomodada, focada em ganhar carnavais, mas não necessariamente em correr riscos e fazer espetáculos onde nem sempre o título é uma certeza absoluta, porque muita coisa pode dar errado, mas se der certo acaba virando um desfile histórico. E isso é uma coisa que eu tentei implementar desde o primeiro momento. Busquei novas possibilidades, novos efeitos, novas alternativas e modelos de pensar e construir o Carnaval. A prova disso foi o Carnaval do ano passado, onde tivemos várias questões sendo desconstruídas e novas estruturas e pensamentos surgindo. O mais difícil de tudo foi com certeza a implementação de uma nova estética de alegorias, porque isso requer tempo, não é só um desfile.

Você já disse em entrevistas que acha 'arcaica' a forma de fazer o Carnaval carioca. O que precisa mudar?

A gestão do Carnaval tem que ser repensada. Tem questões muito pontuais que ficaram paradas no tempo, como as vendas, o comercial, as entregas para possíveis patrocinadores, trabalho com instituições privadas e oferecer a elas possibilidades dentro do Carnaval de forma geral. É preciso pensar num formato de se vivenciar o Carnaval o ano inteiro e de gerar novas receitas para essa festa e para as escolas. A gente vê um impacto de uma organização que acaba sendo muito dependente de verba pública, e não pode ser assim. Os cortes públicos estão acontecendo ano após ano, infelizmente.

Na sua opinião, o Carnaval carioca deve ser assumido pela mesma organização do Rock in Rio?

Não. Primeiro que essa ideia nunca existiu. O que aconteceu foi uma conversa com o Roberto Medina, que é uma pessoa apaixonada pelo Rio e tem diversos projetos em prol da cidade. Ele estava disposto a ajudar realmente o Carnaval a conseguir se perpetuar no tempo. É muito visível, principalmente para uma pessoa com tanto conhecimento como ele, essa necessidade de mudança nesse modelo de gestão. A solução é se pensar numa nova estrutura de gestão, de como a Liesa é formada. Hoje ela tem 23 funcionários e tem lá seus departamentos não muito bem estabelecidos. De repente é preciso trazer mais gente jovem, que não é do Carnaval, mas para trocar ideia com quem já é do meio e formar novas ideias e iniciativas. Acaba que as decisões ficam muito centralizadas na figura do presidente e precisa um pouco mais de dinamismo ali, para que as coisas aconteçam numa velocidade maior. A Liesa acaba sendo muito lenta. E acho que figuras como o Roberto, como o Boni, que são apaixonados pelo Carnaval e tem muito conhecimento a dar, podem ajudar, não só diretamente, mas também a recrutar pessoas capacitadas para poder influenciar nessa mudança tão necessária.

A TV Globo ajuda ou atrapalha o crescimento do Carnaval carioca?

A TV Globo ajuda muito o Carnaval, não tenho dúvidas. Nós temos agora o fim do contrato com a TV Globo, ele deve ser renovado, e acho que alguns pontos dele devem ser revistos. A própria TV teria muitos ganhos com isso. Ela, como detentora dos direitos de imagem do espetáculo, quer que seja um produto cada vez melhor para vender e ser utilizado pela emissora. É preciso buscar novas possibilidades, onde as escolas tenham realmente chance de novas receitas, não só necessariamente patrocinadores, mas outras ideias que possam ser elaboradas, outros tipos de ativação de marcas. Não só nas escolas, mas também nos intervalos de desfile. Podem ser usados espaços atrás das arquibancadas não só como tótens e banners de divulgação, mas como verdadeiras ativações. Pode até rolar uma sinergia com o público que está ali.

Qual conselho você daria para outras escolas de samba para que elas não deixem de existir com as verbas voltadas para o Carnaval sendo cada vez menores?

As escolas precisam estar mais unidas do que nunca, para realmente pedirem essa mudança para a Liesa. As escolas acabam ficando muito reféns da Liesa e elas precisam acreditar e insistir nessa mudança, para que ela seja aceita. É preciso ter novas possibilidades de receitas e caminhos. Às vezes é difícil para uma escola fazer uma venda sozinha, mas uma venda conjunta pode fazer muito mais sentido. Não existe uma receita de bolo que vai poder salvar o Carnaval, mas o que podemos enxergar muito nitidamente é que do jeito que está não está legal.

A Beija-flor faz uma 'auto-homenagem' em 2019, relembrando seus carnavais. Por que dessa escolha?

A auto-homenagem é muito por conta dos 70 anos, que é um ano muito simbólico pra gente, depois de 70 carnavais, contar 70 histórias diferentes é a oportunidade de contar a nossa história, então é uma homenagem, mas é um enredo extremamente educacional, que tem um viés novo, que tem as 70 fábulas, os 70 enredos, jogamos as fábulas novas que dão uma razão do existir da Beija-Flor. É um enredo muito delicado nesse sentido.

Ser filho do Anísio, um dos grandes nomes do Carnaval e da Beija-Flor, tem um peso?

Ser filho do Anísio, ser filho do meu pai, para mim é muito bom do ponto de vista que eu sempre tive uma referência, né? Tanto pra me explicar quanto pra entender como tudo ali funcionava, não só na Beija-Flor, mas na organização do Carnaval como um todo. Claro que tem um peso, uma responsabilidade e ao mesmo tempo me coloca numa posição que deixa de ser mérito meu e é mérito dele.

E o Nosso Camarote volta em 2019. Foi uma parceria que deu certo entre você, Ronaldo e Carol Sampaio?

O camarote volta em 2019 com mais força, com um espaço maior ainda. Projeto incrível que a gente montou junto, eu, Ronaldo e Carol, que já foi sucesso no primeiro ano e não tenho dúvida que vai ser melhor ainda.

Na gestão do Nosso Camarote, o que terá de diferente para 2019?

De diferente acredito que seja a questão do espaço: teremos ele um pouco maior neste ano. Também decidimos tirar todas as áreas vips que existiam no camarote. Entendemos que isso não era necessário. Todo mundo é vip. Teremos atrações incríveis, assim como em 2018.

Qual vai ser o grande diferencial do Nosso Camarote em relação aos outros espaços vip?

O diferencial do Nosso Camarote é a entrega que a gente dá. A gente consegue unir em um espaço único na Sapucaí. É importante frisar que o espaço do Nosso Camarote já é um grande diferencial, não existe espaço semelhante ao do Nosso Camarote, onde a gente pode colocar um show completo do Luan Santana, onde conseguimos colocar uma frisa gigantesca para as pessoas poderem assistir aos desfiles. Essa experiência tão completa dentro da Sapucaí só existe no Nosso Camarote e é por isso que fizemos tanto barulho e sucesso só no primeiro ano. Esse resultado se perpetua para 2019.

Como é estar à frente de um camarote vip e de uma escola de samba como a Beija-flor, num momento em que os investimentos no Carnaval estão cada vez menores?

Não é nem só do Carnaval que temos que falar sobre essa questão, mas principalmente do Rio. Vivemos um momento muito complicado. Eu sou um jovem carioca que ama essa cidade e que nesse momento de dificuldade, onde de certa forma todo mundo está desprezando em geral o Carnaval e o Rio, eu estou buscando acreditar. Busco acreditar na cidade, busco investir, e tenho certeza que o Carnaval vai voltar a crescer.Todos querem estar num espaço vip na Sapucaí.

Te pedem muitos convites? Os artistas pedem muito? Qual é o seu critério para convidados?

Claro, pedem muito, ainda mais sabendo da minha situação com a Beija-Flor e do camarote. Eu tento manter os meus amigos mais perto, aqueles que a gente conta no dedo. E para as pessoas que pedem a gente tem que ter um discurso ali bem bacana, fazer as pessoas entenderem que se eles não pagarem por aquilo a gente não consegue entregar o melhor produto.Ser tão jovem e ao mesmo tempo ter tantas responsabilidades.

Era isso que você sonhou pra sua vida? Pensa em 'fazer carreira' no Carnaval?

Eu amo ter responsabilidades, eu amo trabalhar e eu faço por puro prazer. Em relação à Beija-Flor, zero motivado pelo dinheiro, até porque eu nunca ganhei um centavo da Beija-Flor e nem pretendo ganhar nada, só o camarote, claro (risos). Agora, sobre fazer carreira no carnaval, eu acho que não tinha muito como eu não fazer carreira sendo filho do meu pai. A responsabilidade que eu peguei na Beija-Flor desde cedo... Mas minha profissão não é trabalhar na Beija-Flor. Minha profissão é trabalhar com entretenimento. Eu ganho dinheiro com entretenimento, que é o caso do camarote, por exemplo, entre outros eventos que eu faço no ano.

A volta dos ensaios técnicos na Sapucaí era algo que precisava acontecer?

Os ensaios técnicos são muito positivos. Mais do que ponto de vista técnico, é o ponto de vista da essência do Carnaval: um espetáculo que dá voz ao povo. É o momento em que a gente abre os portões para o povo assistir.

Qual é o seu sonho para o Carnaval do Rio?

Meu sonho é realmente voltar a ser o espetáculo que era. O produto carnaval é incrível, pode pegar todo dinheiro do mundo que você não consegue criar outro Carnaval, porque tem duas coisas na vida que você não compra: paixão e história.

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