Tenho saudades do futuro

Resolvi, de agora em diante, como gozador que sou, sentir falta do que ainda está por vir

Por O Dia

O Brasil é o país do futuro. Lembram dessa frase? Escuto isso desde os anos 1960, pelo menos. Outra frase, desde quando tinha cabelos pretos é: vamos acabar com a corrupção! Também recordam? Teve até caçador de marajás! Será que o tal futuro demora muito a chegar? Para melhor? Ou... Tô perdendo a paciência e já tenho medo de morrer e não ver essa coisa chegar até nós. Pode ser que, na pior das hipóteses, já chegou e não notamos.

Estive fazendo um inventário de coisas que estavam prometidas ou quase inventadas. Perdi meu tempo. Tudo na mesma ou, em alguns casos, até pior. Continuo atrapalhado com a tomada dos três pinos e a falta do tratamento de esgoto. Esqueceram a geosmina? Bem, no momento, aguardamos a tecnologia 5G para nossos celulares. E mais despesa na compra de novo aparelho. Coisa de primeiro mundo. Dá vontade de bancar o malandro e usar o 4G para economizar as novas notas de 200 e, assim, aguardar o mais moderno, o 6G - quando for inventado.

Enquanto isso, na clausura da minha caverna com wi-fi oscilante, vou esperando a vacina para derrotar a covid-19 e o tão esperado novo imposto a ser lançado pelo governo. Eita futuro!

Para enrolar nossas mentes, podemos falar dos Jetsons, com suas casas flutuantes no espaço, os carros voadores, as televisões com live e conferências ao vivo pela TV. Ou os Flintstones, que mesmo ambientado na Idade da Pedra, já mostrava carros e maquinário impensável para a ocasião. Também tínhamos a 'Jornada nas Estrelas' - poucos ainda recordam do Flash Gordon, dos anos 1950, com foguetes e viagens interplanetárias - e os documentários 'Eram os Deuses Astronautas?' que nos deixava bem à frente desse mundinho nosso de cada dia.

Mas, deixando a ficção de lado, voltando à realidade, lembrei de Ruy Barbosa, em discurso no Senado Federal, em setembro de 1914. Nesse caso, na minha modesta opinião, o futuro em nada mudou. Ruy esculhamba o governo pela inércia em apurar uma chacina que resultou em oito ou dez mortos no navio Satélite.

Foi quando, em um trecho de sua fala, mandou o "...de tanto ver crescer as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e as ter vergonha de ser honesto..." Acredito que a maioria de vocês, meus amigos que leem essas mal traçadas linhas, já devem ter visto esse episódio. Pelo menos uma vez na vida. Parece hoje, apesar dos 106 anos passados. Oh, que futuro.

E a cloroquina? Que futuro terá em nossos estoques? Compramos (?) uma cacetada de comprimidos para combater o vírus que vem matando gente em todo o planeta. E não é esse o medicamento indicado. Melhor esperar vencer a validade e jogar fora? O que fazer? Igualzinho aos respiradores que não servem para pacientes do coronavírus. Jogamos fora? Adaptamos esses equipamentos para outros pacientes? Devolvemos aos fabricantes? E o dinheiro gasto nessas compras? E outros golpes em compras que nunca existiram? Oh, futuro ingrato. Lembram dos estojos de primeiros socorros, que foi obrigatório em todos os veículos terrestres no Brasil? Na ocasião, comprei um por R$ 10. Façam os cálculos no país todo. Alguém, ou alguns, conseguiu um dinheiro e tanto. "De tanto...". Oh, passado ingrato.

Tô, em meio ao futuro meio nebuloso, melhorar o pé de meia. Vou inventar uma máquina de enxugar gelo. Quem sabe poderei emplacar um dinheirinho honesto. Sei que pagarei impostos cruéis, sem ter que desembolsar propinas. E podem tomar nota: resolvi, de agora em diante, como gozador que sou, a ter saudades do futuro.

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