Saudosa geladeira

O "remediado" que conseguia, pelo menos, a geladeira, deixava a danada na sala. Assim, visitas que chegavam viam logo de cara o mostrengo enorme, em local de destaque

Por Luarlindo Ernesto

Telefone, geladeira e carro era coisa de rico. O "remediado" que conseguia, pelo menos, a geladeira, deixava a danada na sala. Assim, visitas que chegavam viam logo de cara o mostrengo enorme, em local de destaque. Sem esquecer o adorno - a cereja do bolo - a pequena estatueta do pinguim. E tinha gente que ainda colocava, ao lado da ave, uma batedeira ou o liquidificador. Era o auge da ostentação e do poder ! Bem, eu ainda lembro da geladeira de madeira, que obrigava meu velho a comprar pedra de gelo de dois em dois dias. Aí, a temperatura do enorme móvel na cozinha - também grande - era mantida baixa para conservar os alimentos. Mas, tão logo apareceu uma GE, importada, na praça, minha velha exigiu a novidade. Era da cor azul "já cheguei". Ah, ficou na cozinha, no lugar da outra, a " dinossaura". Hoje em dia, gostaria de ter uma dessas, de madeira, movida a pedra de gelo. Um móvel espetacular, de primeira.

Vejam bem: a manteiga era feita em casa, em uma batedeira, de madeira, manual. A banha de porco, branquinha, era caseira, também. Na velha casa da Rua São Cristóvão - que funcionava como ponto do jogo do bicho na parte frontal - meu velho tinha cerca de 50 pássaros. Um deles, o Corrupião, almoçava na mesa, com a família. Depois de alimentado, voltava para sua gaiola para, provavelmente, tirar um cochilo. A Araponga era o nosso "despertador". Martelava seu cantar por volta das 5h da matina. Não falhava. E era a primeira a ser tratada pela minha velha. Mas, na onda da alimentação farta, bando de rolinhas e pardais chegavam cedinho. Não existia o Ibama. Aliás, a Comlurb da época, era a DLU - Departamento de Limpeza Urbana - usava burros para puxar as carroças que recolhiam lixo. Bichos sofridos... Eu gastava um dinheirinho da mesada comprando farelo de milho e outros mimos para os bichos. Comprava no "Secos e Molhados" do Seu Silva. Ele era pai do futuro presidente do Vasco, o João Silva, que se tornaria um bem sucedido empresário, dono da Carrocerias Metropolitana, ali em Bonsucesso. O João, ainda adolescente, entregava as compras do mês lá em casa, com um caixote na cabeça.

O grande problema em alimentar os burros da DLU é que eles, já condicionados, empacavam sempre no mesmo ponto onde recebiam o farelo. Pô, era o palpite que muitos fregueses aproveitavam para jogar no bicho! O ponto de apostas era dos meus velhos! Depois de inúmeras repreensões - hoje chamam isso de esporro - tive que mudar o local da alimentação. Caso contrário, minha mesada seria extinta. Kacetada, o dinheiro era usado para ir aos bailes "mela cueca", que eu frequentava nos finais de semana. Nas terças tinha o "Baile das Varizes" (os maldosos chamavam varizes de solda elétrica), para as meninas depois dos 30, as balzaquianas, viúvas e separadas. Eu estava presente, também. Ah, tinha as avant première, no Cine Odeon, na Praça Saens Penna, com seção que começava às 10h30 da manhã. Vez por outra, o Festival Tom & Jerry, no Cine Metro. Porreta! Fui ver o Ben Hur, lançamento no Rio, alí no Veneza, em Botafogo.

Veio a era da Lambretta e da Juventude Transviada. A televisão começava a engatinhar pelo país. Em preto e branco, claro. Os hábitos e costumes começavam a mudar. Logo inventariam a mini saia, o maiô Engana Mamãe - comportado na frente e ousado, profundo e revelador nas costas - e o biquíni, mais espetacular, impossível. Caramba, quase deixei escapar a novela "O Direito de Nascer", na Rádio Nacional! O bonde era o meio de transporte mais barato, confiável e "usado por 10 entre nove estrelas". Você ia para Campo Grande, Copacabana, Alto da Boa Vista, Andaraí Leopoldo, Méier, Lins, Malvino Reis, Ipanema, Lapa, Cascadura, Madureira, Leme e Leblon pelo mesmo preço, baratinho e quase sem presença de ladrões. E pasmem, tinha o Bonde 11, que ligava Campo Grande à Ilha de Guaratiba! Já pensou? Vivíamos sem celular! Ih, nem a pílula feminina e nem mesmo o "azulzinho", dos homens. Tudo tem o lado ruim na vida... Vou parar por aqui. Tô quase chorando (de raiva, de nostalgia, de boas e más lembranças, de saudades, do Vasco campeão e dos dribles de Garrincha).

 

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