Sertão e a amplitude de enunciados da dissidência

Por SELECT ART

O Panorama da Arte Brasileira, programa de exposições criado em 1969, vem contribuindo desde então com a formação do acervo do Museu de Arte Moderna de São Paulo e da própria relação entre a instituição artística (memória) e as modulações conjunturais (momento) da arte produzida no Brasil. Em sua 36ª edição, o evento mobiliza um conceito central para a geopolítica cultural brasileira: o de Sertão. O encontro entre a relevância do programa com a urgência em pensarmos o tema assinalado gera expectativa em um contexto que vem se saturando por soluções previsíveis e pautas obrigatórias.

A exposição traz trabalhos expressivos para acercar as noções de Sertão, em sua dimensão geográfica e intersubjetiva. Afinal, insurgem desses territórios incertos dissidências simbólicas e dinâmicas de resiliência. Tidas como áridas e monocromáticas, tais paisagens surpreendem com matizes intensos e vibrantes quem as observa com atenção.

Tropeiros (2019), de Paul Setúbal (Foto: Karina Bacci)

É assim que surge o laranja do urucum depositado em um dos chifres em bronze na obra Tropeiros (2019), de Paul Setúbal. Cinco placas de metal que emulam as silhuetas utilizadas como alvo para treinamentos de tiros formam o volume principal da obra. Incrustados nessas placas encontramos símbolos que aproximam o universo secular dos festejos sertanejos à exaltação atual da cultura militar. Pendurado às silhuetas está também um conjunto de esculturas que ora remetem ao universo dos tropeiros, ora a imagens associáveis ao léxico das tropas de choque. Assim, seu trabalho pode ser visto como uma cartografia do exercício de dominação do ser humano sobre a natureza, sobre os animais e sobre si mesmo, e nos faz pensar sobre as raízes da violência e de sua celebração.

Também em destaque, Antônio Obá propõe uma revisão das estruturas constituintes da nossa identidade nacional ao alocar o corpo materno, negro e bravio em sobreposição às noções oficiais que nos impuseram uma compreensão de sociedade. Em Mama (2019) – alegoria à ideia de pátria-mãe –, o rosto em sombra denota a consciência de apagamentos históricos sociais. Mas, em postura firme e altiva, segurando filhotes felinos, a figura da mulher anuncia o crescimento impreterível da luta que reivindica o lugar do corpo negro, seu reconhecimento e emancipação. 

Em seus desenhos, Figura assentada I, II e III (2019), o exercício preciso de síntese sugere conexões entre materialidade mundana e domínio espiritual. A planaridade declarada das formas é quebrada com o jogo de encontro entre linha e volume, o que sugere um embate entre dimensões. Ao inverter a concepção do que é luz e sombra, Obá leva-nos a avaliar a urgência em repensar tais conotações, tanto na esfera metafísica como na social.

Assim, num conjunto de 29 artistas e coletivos, a seleção de trabalhos aponta para a complexidade dessas paisagens sociais e para a valorização de temas caros à compreensão do nosso imaginário atual. No entanto, há um certo esgarçamento conceitual que reúne uma arbitrariedade de debates, ao mesmo tempo que favorece o conteúdo como coeficiente prioritário e de autolegitimação do trabalho artístico. De todo modo, é louvável o esforço de mapeamento exercido pela curadoria – empreendimento significativo para a valorização de produções que surgem para além dos eixos principais.

Mama (2019), de Antonio Obá (Foto: Cortesia Mendes Wood DM)

Serviço
36º Panorama da Arte Brasileira: Sertão
até 15/11
MAM-SP
Parque do Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº
mam.org.br

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