Coletivos Berlim-BR: Se podá a gente brota

Por SELECT ART

Este ensaio-curadoria aponta, de modo não hierarquizado ou conclusivo, redes de criação artística e ativismos baseados em Berlim, com membros ou fundadores brasileirxs. Pessoas conectadas a coletividades gentilmente compartilharam suas experiências e a partir delas localizamos organizações independentes, festivais de teor político e artístico, coletivos de DJs e frentes de resistência em defesa dos direitos humanos no Brasil. A atuação de indivíduos do País em empreitadas ativistas, artísticas e criativas não é desprezível, e aqui tentamos traçar um cenário múltiplo.

Coletivo queer MASH-UP! leva a festas sem fins lucrativos line-ups políticos e sexy (Foto: Nara Virgens)

Berlim somente hoje alcança a mesma população que tinha na década de 1920 (4 milhões), sendo um terço deles formado por habitantes estrangeiros. A cena de coletivos trabalhando na cidade é dinâmica e plural, e se renova de acordo com o ritmo de transformações imposto especialmente nos anos 1990, quando virou capital da Alemanha reunificada. Desde então, Berlim passa por um processo de reconstrução radical, com injeção de capital privado que investe da construção de shoppings a hortas comunitárias na paisagem, em gentrificação constante.

Ato Um Ano Sem Marielle em frente à embaixada brasileira em Berlim, organizado pelo Fórum Resiste Brasil – Berlin (Foto: Barbara Macel)

Após a queda do Muro, a cidade era repleta de terrenos baldios e estruturas abandonadas. Para ocupá-las, o governo dava facilidades e subsídios a investimentos e experimentos arquitetônicos. A moradia barata atraía gente, enquanto iniciativas de residência coletiva seguiam o modelo dos squatts dos anos 1970, surgidos no lado Ocidental. O squatting foi um movimento antinazista e anticapitalista de ocupação não autorizada de prédios vazios com fim de habitação – com cozinhas comunitárias, gráficas coletivas, bibliotecas, bares etc. Para ocupar áreas do lado Leste, nos anos 1990, squatts legais e temporários foram permitidos até a gentrificação chegar. Hoje há algumas residências exemplares, com diretrizes diversas, como a Kunsthaus Kule, casa coletiva de artistas e espaço cultural independente fundada há mais de 25 anos no Mitte; a Green House Berlim, iniciativa com capital privado na periferia, para até cem residentes, com ateliês, flats, espaços de convivência e exposições; ou Groni 50, moradia cooperativa dos anos 1980 que realiza eventos como o Küfa, mostra mensal de filmes e debates.

Food Recue Project, do coletivo Be Bonobo; Leite de Pedra (2018), trabalho de Caíque Tizzi; registro da perfomance THE HAIRY GODDESS MISSTORY (2017), de Érica Zíngano, Marion Breton, Tatiana Ilichenko, Barbara Marcel e Tom Nóbrega (Fotos: Cortesia Moana Mayall/ Luis Artemio de Los Santos/ Tatiana Ilichenko)

Estar estrangeira
Residir em outro país implica colocar em crise noções de pertencimento e identidade, impingindo o sujeito a afirmá-las ou deixá-las mais fluidas no curso inevitável do autoconhecimento. Afinidades identitárias, intelectuais e políticas motivam a aproximação de indivíduos no desterro, formando redes de afeto, solidariedade, cooperação e trabalho.

A cineasta e videoartista carioca Barbara Marcel, doutoranda pela Universidade de Weimar, mestra pelo programa Arte e Contexto da Universität der Künste (UdK), volta sua prática artística para assuntos de justiça socioambiental e processos colaborativos, entre outros temas. Ela acompanha iniciativas como o GIRA Festival de Resistências, cuja primeira edição aconteceu em setembro de 2018, organizado por um coletivo diverso de brasileirxs residentes na cidade. Por três dias o GIRA programou atividades na Kunsthaus Kule, no Prinzessinengarten – jardim comunitário e espaço de agroecologia e urbanismo sustentável, e no S.U.S.I. – Centro Intercultural de Mulheres. Na programação, debate sobre feminismo negro organizado pelas artistas e ativistas Uriara Maciel, Marly Borges e Tâmera Bak, e encontros para discutir diversidade de gênero e visibilidade lésbica, direitos reprodutivos da mulher, resistência e cultura indígena, lutas sociais de base no campo e na cidade, produção artística militante… Outros convidadxs e participantes, presenciais ou virtuais, foram Bárbara Santos, diretora artística do Espaço Kuringa, Berlim, centro para multiplicação criativa do Teatro do Oprimido, os coletivos DASPU, Afojubá Berlim Maracatu, Coletivo Papo Reto e Casa das Pretas.

Mais estritamente político é o Fórum Resiste Brasil-Berlim, criado em dezembro de 2018 por ativistas, coletivos e ONGs atuantes na capital alemã, pela democracia e os direitos humanos no Brasil. O objetivo é unir coletivos, dar suporte a ativistas independentes, conectar com organizações internacionais, dar mídia a eventos e ações entre as instituições e partidos políticos alemães e brasileiros. O FRB-B organizou manifestações pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, em defesa dos direitos do ex-presidente Lula, de pressão a empresas alemãs que lucram com as armas no Brasil ou com o desmatamento da Amazônia, de denúncia a ataques a direitos das mulheres, LGBTQI, indígenas, quilombolas, populações pobres e periféricas.

Festa organizada pela rede coletiva Voodoohop, que tem 20 integrantes moradores de diferentes cidades, como São Paulo e Berlim (Foto: Marina Faé)

Outras iniciativas somam ativismo à arte e ao entretenimento. É o caso do coletivo queer MASH-UP!, que começou como um caminhão de som na parada LGBTQI alternativa no bairro de Kreuzberg, em 2011, e daí começou a itinerar em clubs. A DJ Marie Leão vê os inícios da MASH-UP!, em 2008, inspirados pelo evento independente Queer Park, no Görlitzer Park. Também cita o Muvuca, espaço misto de bar, restaurante e centro cultural do início dos anos 2000, precursor de uma cena queer multigender e multicultural, organizado por Sandra Bello e Marly Borges. Quanto ao MASH-UP!, ele traz line-ups “sexy-political” poderosos e se considera uma plataforma ativista intersecional. As festas sem fins lucrativos cobram ingressos a preços baixos. Pagam-se os DJs e um fundo coletivo, sendo o “lucro” doado a organizações ativistas. Hoje elas são nove mulheres, entre as brasileiras Marie, DJs Grace Kelly e Nara. Já receberam nos eventos, entre muitos nomes, Lynn da Quebrada, Solange Tô Aberta e Cigarra, da Voodoohop – uma rede coletiva orgânica de DJs e realizadores fundada há dez anos em São Paulo, com mais de 20 integrantes de várias origens, pelo mundo, inclusive Berlim. Suas festas são experiências de música integradas a instalações e performances em uma estética transcultural lisérgica e livre.

STRAVAGANZA (2014), trabalho do Agora Collective apresentado no Project Space Festival Berlin (Foto: Cortesia Caíque Tizzi)

Entre as iniciativas que hoje se transformam está o Agora Collective. Fundado por Caíque Tizzi e Pedro Jardim, em Neukölln, em 2011, o projeto multiartístico começou pela reunião e desejo de jovens em criar um espaço relacional de criação não acadêmica em artes, gastronomia e outros. Foram oito anos de projetos colaborativos em residências artísticas, seminários, festas, workshops, ateliês, co-working e eventos coordenados por vários membros. Ganharam fundos europeus como do Programa CAPP (2014-2018), mas, após se mudar para um galpão industrial, em um acordo com a fundação suíça Edith Maion, ficaram impedidos de progredir por conta de problemas intrínsecos à gentrificação da cidade. Por ora, o Agora Collective está um coletivo nômade e Tizzi, artista e diretor artístico do espaço Agora, volta-se para colaborações com outras pretensões, como o Babes Bar, espécie de cabaré-restaurante performático.

Por fim, a experiência coletiva temporária de Insurgências, plataforma para artistas latino-americanos residentes em Berlim, organizada pela curadora e educadora espanhola Paz Ponce, no Agora, em 2018, projeta trabalhos e artistas com temáticas que discutem marcas de sangue na história colonial, nos corpos e subjetividades da América Latina. No projeto, pessoas de Brasil, Porto Rico, Colômbia, Argentina, Guatemala e outros passaram por um intensivo de trocas críticas e afetos, com um evento público final. Do total de 12 artistas, sete eram brasileirxs.

“Se podá a Gente Brota”, diz a arte de Cleiri Cardoso para o GIRA 2018. E assim são coletividades, no âmbito civil ou artístico. A autoria coletiva é uma marca tanto quanto a resiliência dos indivíduos. Habitar uma casa cooperativada, educar, coletar de mercados e cozinhar alimentos prestes a vencer são atos solidários de resistência na vida – prontos a brotar diversos, ruidosos, poéticos, solares –, diante da ascensão mundial de morais ultrapassadas, autoritárias, desumanizantes, que glorificam a ignorância e a violência. Berlim tornou-se um hub hipster e não é mais o centro da expressão livre de outrora. Contudo, sua condição de urbe mutante – com subsídios e instituições sólidas – permite experimentos utópicos de convivência e política, plurais, que florescem em paralelo à globalizada tirania homogeneizante da grana.

Chamada pública da plataforma Insurgências para artistas latino-americanos com práticas críticas residentes em Berlim (Foto: Sebastian Eduardo)

Colaboraram:
Barbara Marcel, Marie Leão, Moana Mayall, Pêdra Costa, Lia Krucken, Caíque Tizzi, Voodoohop (Cigarra, Aline Tima, Carol Barrueco, Gama, Iaci, Florence, Kotoe, Laurence, Salisme, Paulo Fluxus e Ricardo Vicenzo), Aline Baiana, Pedro Victor Brandão, Insurgências (Paz Ponce, Jefferson Andrade, Alexandra Bisbicus, Andressa Cantergiani, Pêdra Costa, Manuela Eichner, Manuela García Aldana, Lia Krucken, Moana Mayall,
Julia Mensch, Alberto Morreo, Rafael Puetter e Melanie Rivera Flores) e
Fórum Resiste Brasil-Berlin.

Comentários