Poética da inconclusão

Por SELECT ART

Cena de Roberto Bolaño: A batalha futura, filme dirigido por Ricardo House
Cena de Roberto Bolaño: A batalha futura, filme dirigido por Ricardo House -

O milagre exige

Que via imaginarei
para seguir flutuando
& atravessar a selva sempre crescente
do grosseiro rio
O milagre exige
De meus ossos flor
& de minha mente frutos
Neste crepúsculo preciso
em que a nuca do sol
vai de focinho
O ouro sepulta a cinza
a praga ao mar
a magia a toda pressa”

O belo poema acima é de Mario Santiago Papasquiaro em Labirinto, seleta de poemas organizada pelo companheiro Roberto Bolaño no Infrarrealismo (ou Real-Visceralismo, conforme o praticam Arturo Belano, Bolaño, e Ulises Lima, Papasquiaro, n’Os Detetives Selvagens). Congênere mexicano de Roberto Piva ou Herberto Helder, este beatnik surrealista teve suas ideias fora de lugar publicadas no Brasil há dez anos pela editora Dulcinéia Catadora, na tradução de Beatriz Bajo. Como a edição é raríssima, aí vai mais um:

Devaneio

Já estive aqui
sem ter estado
(nas cordilheiras desta serenidade)
(dentro deste relógio de luzes que não estorvam)
As torres se iluminam no simples toque
o açúcar queimado
o violino
perfumado do seu próprio corpo
Bioquímica-freejazz
Gruta sem 1 gota de cosméticos
Poesia natural
como o esperma-aguaceiro do Amor
Já estive aqui
sem ter estado” 

Em El Secreto del Mal (Anagrama), último livro em que trabalhava Bolaño – na verdade uma coletânea dos mais recentes arquivos encontrados em seu computador pelo editor e amigo Ignacio Echevarría –, o escritor chileno/chicano/hispânico, sempre sob a pele de Arturo Belano, conta uma visita fictícia que fez ao apartamento de Papasquiaro, aliás Ulises Lima (aliás José Alfredo Zendejas Pineda, seu verdadeiro nome de batismo), ao retornar à Cidade do México depois de décadas vivendo na Espanha.

Toca várias vezes a campainha, mesmo sabendo que o amigo já está morto – em 1998, Papasquiaro foi atropelado por um sinistro Impala preto (e é muito estranho o fato de que, na cena final do Detetives Selvagens, o carro usado pela dupla Bolaño/Lima para perder-se no Deserto de Sonora seja um Impala branco). De repente, da porta ao lado emergem três punks gordos e carecas. Apresentam-se como “os últimos discípulos de Ulises Lima” e convidam Belano a entrar em seu apartamento, ouvir o disco de sua banda e beber algo.

Este permanece estático a mirar os joões-gordos e os pôsteres de bandas que decoram as paredes do apartamento, onde “garotos mexicanos o olham desde as fotos ou desde o inferno esgrimindo suas guitarras elétricas como se fossem armas ou como se estivessem morrendo de frio”. Jamais se saberá se Bolaño continuaria este relato ou se ele termina assim, feito um viaduto inacabado precipitando-se sobre a saudade, como quase tudo o que escreveu (uma poética da inconclusão, na definição de Echevarría). Assim como a ética da amizade e da sinceridade olho-no-olho, porém em registro mais atmosférico, os vazios bolañescos entranham-se na poética de Papasquiaro, autor de fluxos de imagens sem juízo final – um autor sem juízo, como se depreende no retrato que, em outro texto, fez de seu bróder:

“Ulises Lima era meu amigo Mario Santiago Papasquiaro, que morreu há um ano. Foi meu melhor amigo, meu melhor amigo de longe (…) um ser estranhíssimo, um leitor empedernido com coisas tão estranhas como meter-se sob o chuveiro e ficar lendo. Sempre via meus livros molhados e não sabia 0 que havia ocorrido: será que o México é tão grande que pode chover em certas partes? Me perguntei até que o surpreendi lendo no chuveiro (…) Mario era um personagem fantástico, não tinha nenhuma disciplina. Era um poeta poeta, um ser fantástico, muito valioso”.

Outro Papasquiaro:

“NÃO CREIO MAIS QUE NA QUEDA DE ESTRELAS

Sobre as pontes que descubro
1 cemitério de vidros
: o ex bendito chiqueiro :
Dormiu
o cheiro de tanto trator sangrento
de onde quebram a cintura dos acampamentos ciganos
indícios de mim
que sustentam
& neles que digo:
Não creio
de imediato nem nas chuvas de ouro velho nem de cabras
Nem na irrealidade deste rio
em que de santa gana me afogo
como se 1 adaga sem rumo
partisse ao sol dos meus ecos”

Apesar da leitura furiosa do dadaísmo, dos beatniks Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs, do movimento peruano Hora Zero, dos poetas de Liverpool e dos Angry Young Men ingleses, sem falar na influência direta da vanguarda mexicana Estridentista, o que unia os infrarrealistas, além da supracitada ética da amizade e da lealdade totais, era uma profunda consciência política. Nascido em Santiago em 1953, Bolaño vivia em DF desde o icônico ano de 1968, quando testemunhou o crescente movimento estudantil, que redundou na invasão pelo exército da Universidade Nacional Autônoma do México e do massacre dos estudantes em Tlatelolco – eventos marcantes em seu romance Amuleto. Anarquista radical, Bolaño retornou, em 1973, a Santiago, para lutar contra o golpe de Pinochet. Mas foi preso e, não fosse uma antiga amizade de escola com os carcereiros, teria sido morto – o que lhe valeu escapar do Chile para voltar ao México.

Em 1973, o presidente mexicano era Luiz Echevarría
Álvarez, antigo secretário do presidente Gustavo Díaz
Ordaz, o mandante dos massacres nas universidades. Sob Álvarez, a cultura mexicana teve uma espécie de renascença, acompanhada de incentivos financeiros estatais – de que se beneficiava, por exemplo, a revista Plural, editada por Octavio Paz. Assim, todos os artistas que ganhavam incentivos do governo foram conectados a uma espécie de “cultura oficial”, oposta ao underground de extrema esquerda, onde vicejavam os poetas saídos de oficinas de escrita criativa, que haviam fugido dos cursos de Letras das universidades. Nesta cultura polarizada, Bolaño e Papasquiaro eram os líderes naturais, desde que se conheceram no Café La Habana, em DF. A partir de 1975 começaram a fazer leituras públicas e em 1976 Bolaño lançou o Manifesto Infrarrealista – que, curiosamente, cita Drummond:

“Até os confins do sistema solar há quatro horas-luz; até a estrela mais próxima, quatro anos-luz. Um desmedido oceano de vazio. Mas estamos realmente seguros de que só exista um vazio? Unicamente sabemos que neste espaço de luz não existem estrelas luminosas; se existissem, seriam visíveis? E se existissem corpos não luminosos ou escuros? Não poderia acontecer que nos mapas celestes, assim como nos mapas terrenos que estejam indicadas as estrelas-cidades e omitidas as estrelas-aldeias? Escritores soviéticos de ficção científica arranhando-se o rosto à meia-noite. – Os infra-sóis (Drummond diria os alegres companheiros proletários) (…) – Quem terá atravessado a cidade e por uma única música só terá ouvido os assobios de seus semelhantes, suas próprias palavras de assombro e raiva?”
(Déjenlo Todo, Nuevamente Láncense A Los Caminos)

O grupo de infrarrealistas era muito heterogêneo, formado por uns 20 poetas e artistas largamente apreciadores de sexo, gozações e expansores da mente como álcool, maconha, cocaína e cogumelos mágicos, homens, mulheres, hetero e homossexuais (ao contrário da cena beatnik, marcadamente misógina e gay), e está retratado à clef no monumental Os Detetives Selvagens. Todos detestavam Octavio Paz, o grande intelectual do establishment, e chegaram a sacaneá-lo pesadamente em leituras – as “sabotagens” eram uma costumeira prática infrarrealista, que consistia em invadir lançamentos, entregas de prêmios e saraus para que os bárbaros lessem seus próprios poemas. Em 1976, os infras publicaram a primeira antologia, Pájaro de Calor, e, no fim de 1976, com a demissão de Paz da Plural, afinal editam seus textos em uma revista “oficial”. Em 1977, Bolaño participaria da última antologia infrarrealista, Muchachos Desnudos Bajo Un Arco-íris de Fuego, e seguiria para a Europa, com o coração partido por ter sido penabundeado pela poeta Lisa Johnson. Nunca mais voltaria ao México.

Cena de Roberto Bolaño: A batalha futura, filme dirigido por Ricardo House (Foto: Divulgação)

Nos anos mexicanos, Bolaño tinha os cabelos compridos, levava a tiracolo uma mochila cheia de poemas e fumava sem parar. Leitor de Nicanor Parra, não bebia nem fumava maconha: só observava, escrevia e conspirava. Nos Detetives, escrito em Barcelona quando Bolaño já contava 45 anos, os Infrarrealistas são chamados de Realvisceralistas, Bolaño é Belano, Santiago é Lima, a pintora Carla Rippey é a mecenas Catalina O’Hara, a namorada Lisa Johnson é a musa Laura Jáuregui e Juan Esteban Harrington é García Madero, um dos principais narradores. Bolaño vivia expulsando os colegas do movimento, e depois os readmitia. Dizem que era genial e desagradável: passava dias sem dormir, só escrevendo e lendo. Podia ser muito engraçado e carinhoso, mas também muito deprimido e raivoso.

Em 1977, Bolaño viajou com Papasquiaro à Europa; em uma estação de trens na França mataram o Infrarrealismo. O mexicano voltou, mas o chileno radicou-se em Barcelona, depois Blanes, onde escreveu muitas cartas a Papasquiaro, que nunca respondia. Enquanto o autor de 2666 trabalhou para levantar a carreira que o torna hoje o protagonista da literatura pós-moderna – ganhou vários prêmios em 1998 com Os Detetives, e cinco anos depois morreu, aos 50, deixando centenas de páginas inéditas –, Papasquiaro pôs em prática seu verso famoso: “Se vou viver, que seja sem timão e em delírio”. Fiel à ética do desregramento, costumava atravessar as ruas da Cidade do México às cegas. Mario Santiago Papasquiaro morreu atropelado em 10 de janeiro de 1998 – um dia depois de Bolaño terminar Os Detetives Selvagens

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