"Sou só um ator, a fama é consequência da exposição"

Por O Dia

Caio Paduan
Caio Paduan - Danilo Borges

Aos 31, Caio Paduan se tornou um dos atores da nova geração preferido do público e dos diretores de TV. No ar como Bruno, de 'O Outro Lado do Paraíso', ele chama a atenção não só pela beleza, mas pela construção do personagem. Também, pudera. Para interpretar o mocinho, o ator se aprofundou nos estudos e leu Shakespeare. Ler, aliás, é um dos passatempos de Bruno, que só virou adepto da internet por conta da profissão e prefere os livros aos computadores. Nada vaidoso, simpático, falante, estudioso e pé no chão, Caio é o entrevistado deste domingo da coluna. Confira:

Como está sendo fazer o Bruno?

É uma construção. Desde o início eu já me animei com o convite do Mauro (Mendonça Filho, diretor) porque não é de um vilão. Sabia que ia ter que trabalhar bastante pra ter a construção. Estudei com preparadores... Eu sou meio que viciado na profissão.

É mais fácil fazer um mocinho?

Zero fácil porque tem que dar credibilidade a ele. Ninguém é perfeito e tem que procurar muitos erros. Ver onde ele erraria, onde ele vacila... Ele é um cara super educado e de bom coração, mas ainda assim é um cara de 20 anos, com uma formação a ser cumprida nessa etapa da vida. Fui atrás disso e trazer a humanidade para que as pessoas olhem e vejam um ser humano, não algo chapado. Eu quero profundidade e sentimento.

Na novela você vive um amor interracial. Isso mudou a sua forma de ver o racismo?

Eu sempre vi e acho esse preconceito muito absurdo porque sempre convivi muito bem com todo mundo, independente de raça. Na verdade, acho esse preconceito meio maluco até. As pessoas deviam se tratar porque não faz sentido menosprezar outro ser humano pela cor. É como se menosprezasse alguém por causa da orelha, entende? Quando eu fui estudar por causa da novela e vi as estatísticas, me entristeci muito. É algo que você vê o tamanho do buraco e o tamanho da violência que isso causa e quanto interfere negativamente na vida das pessoas. Eu vi uma matéria em que o racismo causa uma dor mental muito grande. Imagina para uma pessoa? Vai minando a autoestima e a saúde mental. Você vai buscar emprego e é surreal a diferença e os números. A gente está falando de alguma coisa muito séria e tem que se aprofundar sobre isso.

E você já sofreu algum tipo de preconceito?

Acaba acontecendo uma coisinha ali outra aqui, mas eu não tenho nem coragem de falar o que eu senti. Eu ouvi quando fui procurar emprego de garçom. Eu fui garçom em festa infantil, trabalhei na rua para pagar faculdade e eu ouvi algumas besteiras assim: "ah, você loirinho desse jeito e você precisa de emprego?". Isso é tão bobo perto do que as pessoas passam que eu não tenho nem coragem de reclamar.

Como é trabalhar diretamente com a Erika Januza?

Desde o início a gente se deu super bem. Temos uma relação de amigo, de parceirão. Chega a ser engraçado. Parece que a gente é primo. A gente estuda junto e ela me ajudou muito. Erika me contou várias experiências da vida dela e eu também falei das minhas experiências. A gente trocou muito. Trabalhar com uma parceira é mais fácil. A gente se diverte muito. Tem uma galera ali muito legal. Não só a Erika, mas também sou muito amigo do Arthur (Aguiar) e fazer um irmão assim é muito legal. Tem meu pai, que é o Luís Melo. Tem a Eliane (Giardinni), que é um amor também.

Você vem de bons personagens. Tem alguma coisa que você ainda queira fazer?

Por ser meio nerd, gosto muito de história, então não vejo muito tamanho do personagem. Eu gosto de tramas interessantes que emocionam. Principalmente as que mexem na parte psicológica e que eu possa mudar isso, construir do meu jeitinho. Torço para que venham boas histórias, que as pessoas nunca me vejam só em entrevistas e tal, mas quando eu esteja em cena nunca me vejam. Eu quero construir o máximo possível pra pessoa entender que é outro ser humano.

O que você seria se não fosse ator?

Pensei em estudar psicologia. Eu fiz jornalismo. Sou apaixonado por jornalismo e admiro a profissão de vocês. Adoro dar entrevista... Acho legal a troca. Eu me pergunto muito, me entrevisto também. Eu entrevisto meu personagens.

Sério? Mas como que você faz isso?

Eu pergunto mesmo. Escrevo perguntas e tento responder como eles.

Você recentemente quase foi parar numa produção internacional. Você tem interesse de atuar fora do país?

No início acabou sendo quase e depois acabou sendo muito quase porque ficou entre mim e o menino que ganhou o papel.

Deve ser muito doido saber que eles sabem quem é você, não é, Caio?

Muito doido! Essa é a palavra porque essa é uma vontade minha trabalhar com cinema e série. Eu consumo muito isso. Tenho mais de 400 filmes aqui comigo, então é uma vontade de explorar não só o cinema americano, mas o europeu também. Só de ter tido contato com a direção e com os produtores foi maravilhoso. Eles viram as cenas de 'Rock Story'. É muito louco! Isso você vai tendo noção da globalização, o quanto tá todo mundo conectado.

Você é um cara que é da internet ou não?

Mais agora. Acabei de comprar meu primeiro notebook com 30 anos. Que vergonha, né?. Usava o da família, da irmã. Tô na internet agora, mas eu gosto da troca que isso tem em relação às pessoas, com o público nas redes sociais.

Teve algum momento da fama que você tirou o pé do chão?

Acho que quando você estuda e trabalha tanto pra isso, você lembra das horas de trabalho de barman, de tudo que fez pra estudar teatro. Era tudo pra conseguir me formar. Pagava a faculdade e depois de um monte de peças com personagens pequenos, ralação... Eu sou só um ator, a fama é consequência da exposição que o veículo traz. Se você entende esse mecanismo, se tem pai e mãe, educação de casa, tá sempre em contato com os pais, os mesmos amigos de sempre, não. Tenho os mesmos amigos há 20 anos, então eu prefiro ser o mesmo garoto que nasceu na Tijuca.

Você é um cara vaidoso ?

Eu sou um cara atento. Não sou muito vaidoso até porque eu permito que meu corpo seja por meu trabalho. Se pensar friamente, esse é meu único material de trabalho, então eu entrego ele. Faz muito tempo que não tenho o cabelo que gostaria, tô em função dos personagens.

O que você faz no tempo livre?

Assisto a séries e filmes. Tenho meus amigos aqui no Rio, treino com calma porque quando você tá gravando muito tem que achar uma brecha pra poder ir pra academia. Consigo fazer meu boxe, que é uma terapia, encontro amigos, janto. Aliás, eu como bastante.

Como você se vê daqui a dez anos?

Já quase grisalho porque eu gosto de cabelo branco e não vou mexer neles. Gosto de envelhecer, então vai ser muito legal. Daqui a dez anos vou estar mais velho encurtando os caminhos da vida, com mais maturidade e isso me interessa muito.

E profissionalmente? Como você se vê?

Com ótimos personagens. Eu busco muito isso, tenho peças que quero fazer, textos que quero montar, quero escrever um livro, tem uma peça que quero montar, um monólogo falando sobre o homem e tempo tem um monte de coisas que eu quero. Ah, e sei lá, talvez lá pelos quarenta, talvez o primeiro filho já esteja aparecendo.

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